A opinião de ...

A nossa época

Dividir a história por épocas é uma metodologia comum, procurando uma referência que as identifique. Mas em relação à que vivemos, a simplicidade não consegue eliminar a perplexidade derivada da multiplicidade de sinais. Talvez possa encontrar-se um denominador comum, assumido ou silenciado, que é o da “decadência do Ocidente”, mas é uma expressão que parece sobretudo limitar-se a anunciar a marcha para um ponto final de uma parte, e não do todo. Como por exemplo, quando Jacques Barzun, escrevendo o seu Da Alvorada à Decadência (Gradiva, 2003), conseguiu esta lista de rótulos: Época de Incerteza, Época da Ciência, Época do Niilismo, Época dos Massacres, Época das Invasões, Época do Globalismo, Época das Ditaduras, Época do Design, Época da Derrota, Época da Comunicação, Época do Homem comum, Época do Cinema e da Democracia, Época da Criança, Época da Ansiedade, Época da Ira, Época das Espectativas Absurdas. De facto, e visto o que na análise chama a europeização do globo, o que significa sobretudo domínio político até à descolonização, sendo realmente do espaço ocidental que fala, levando a ter presente o comentário de Disraeli no sentido de que “não podemos enganar-nos porque estudamos o passado e é bem conhecida a nossa capacidade de revelar o futuro quando este já ocorreu”. No caso da nossa atual época, dando crédito ao aviso de Disraeli, a decadência, que também foi chamada “do outono ocidental”, de facto traduz um facto que tem largo passado, mas continua em progressão inquietante. O costumado exame de passagem de ano leva a exames apurados dos sinais das mudanças mais inquietantes, em função da conceção do mundo e da vida dos observadores, e revela-se que os temas mais generalizados são os da paz, que os mais alarmantes analistas consideram “violada em toda a parte”: mas talvez exija prioridade o ambiente porque é o futuro do palco das mudanças, isto é, do planeta terra que está em causa, nesta alteração da hierarquia das potências, até porque inclui a possibilidade da cascata atómica desencadeável por simples leviandade de governantes irresponsáveis. Enquanto o pior vai sendo evitado ou ganhando tempo de espera imprevisível, a demografia está a implicar, entre mais efeitos exigentes de resposta, a movimentação de massas populacionais em busca de lugares que ofereçam vida digna e futuro, coisas que, recusadas, podem facilmente despertar a desordem e o recurso à violência. Está anunciado, não apenas como hipótese, mas como processo em curso rigorosamente averiguado, que é urgente indagar o que resta de confiável do Acordo de Paris de 2015, não obstante de, entre 2015 e a avaliação de 2018, se registarem alguns progressos, documentos de compreensão da cooperação dos 170 contribuintes nacionais, com resultados reunidos pelo Secretariado da Convenção – Quadro das Nações Unidas sobre as mudanças climáticas. Já porém sem surpresa possível, vista a lista de intervenções anárquicas do Presidente dos EUA, este decidiu retirar-se do Acordo de Paris, não obstante a União Europeia, por exemplo, o considerar “irrevogável e não negociável”, ainda que a sua própria contribuição não seja excecional, exigindo atenção os “novos emergentes”, especialmente a China e a Índia. É boa notícia que, tal como aconteceu na última Assembleia Geral da ONU, o unilateralismo da “América First” fosse contrariado pela geral sustentação do multilateralismo, incluindo a intervenção do Presidente da República Portuguesa. A evolução é porém incerta, como se viu na recente CUP24 reunida em Dezembro de 2018 em Katowice, na Polónia, onde foram revistas as contribuições nacionais para 2030, insistindo no dever e necessidade de salvar o Planeta Terra do desastre, para o qual já se apontam datas se não houver ação. O que implicou tentar um levantamento rigoroso da situação, definindo sobretudo os perigos averiguados da atual circunstância, e o trajeto a corrigir.
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O número e qualidade dos temas do programa defensivo implica não apenas o leal cumprimento das obrigações assumidas pelos Estados, mas também o empenhamento da sociedade civil, a investigação científica cooperada, e obter a adesão informada, empenhada, e interessada, da opinião pública. O mesmo Presidente dos EUA, que arriscou a imprudência na área do armamento atómico com a histórica reinvenção do diálogo diplomático, é também o que julga ter por indiscutível que este problema é irrisório. Para corrigir esta arrogância, convinha que lhe dessem conhecimento da intervenção da jovem de 14 anos Greta Thunberg, que teve voz na reunião da Polónia, e que não pode deixar de ser entendida como um apelo à maturidade e sentido de responsabilidade de intervenientes responsáveis pelo legado que a geração dela vai receber. Já não vigora a convicção de que um poder divino intervém na escolha dos governantes, mas a crença popular ainda é confortada pela esperança de que algum mandatário de Deus nos vem avisar. Na dúvida, não seria inútil mandar explicar aos responsáveis céticos as palavras da criança.

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