A opinião de ...

Divagando…

Regressar é como um encontro procurado, é ser sugado, andar para trás, é meditar em confronto connosco. Voltei ao Sendim da Ribeira, no coração de Alfândega da Fé, revi-me nos tempos em que a vida explode numa aldeia ativa, com gentes que possuíam a terra e a emprenhavam mesmo, dava gosto observar o crescimento dos filhos, os de sangue e os de seiva. Era uma comunidade autêntica, comunista mesmo, várias eram as atividades em que que todos ajudavam um, as malhadas povoam-me o imaginário.
O dia, de nevoeiro rasante, como se a aldeia estivesse de gorro, poderia ser o de Natal pois que o ingrediente indispensável, casal acolhedor, estava presente, o frio e a lareira. Tenho a certeza que se tivesse subido ao monte da aldeia, o Castelo, saberia de imediato quantas almas por ali hoje labutam, os fumos das chaminés informar-me-iam.
Naqueles vales os horizontes são curtos, a vista tropeça de imediato nos montes que por ali vivem, é como olhar para o mar e interrogar-se o que depois dele haverá. Para chegar ou para partir há que vencer aquela barreira e espreitar para de Trás-os-Montes.
A vertigem, o gigantismo da passada actual, compara-nos à economia, à análise micro e macro. Hoje, nos dias de hoje, do interior só poderemos dar o salto para o exterior, nosso litoral se micro, macro se resto do mundo, centro da terra, nossa mãe. Sabe-se que o exterior, para a humanidade, será Marte, aqui tão perto, ao alcance da mente, esses serão os novos mundos desta civilização em asfixia.
Daqui para a frente há que saber viver entre o sugar do passado e o sopro do futuro, entre machado e motosserra, macho e trator, carro e avião, entre avião e foguetão.
Apesar de tudo, no meu micro pensamento, sinto o Sendim como ninho de andorinha onde sempre apetece voltar pois que a quietude que por aqui levita, os odores reconhecidos, os sabores únicos que por aqui se mastigam, as coisas que nos falam dos entes que já viveram e nos avivam as saudades, são elixires de sustentação.
De regresso, senti calafrios na travessia do túnel futurista, ali mesmo por debaixo daquele mar imenso, do Marão que extasiou Torga. Já no Porto fui ao encontro de mim, fui visitar-me ali para a Praça Carlos Alberto, início e fim de trilho de uma lenda, entre muitas que a Invicta tem para contar.
De costas para a velha Universidade, olhando de soslaio para os Leões aguadeiros que me conhecem observo aquela rua estreita que vem da Lenda até mim. Contam os tempos que em plena Dinastia Sueva do Sec. VI, por doença do seu querido filho Ariamiro, o Rei Teodomiro prometeu a São Martinho de Tours a construção de uma Capela, em troca da ansiada cura. Na partida do mensageiro com valiosa oferenda, o Rei de imediato inicia a construção desta Capela Românica, terminando bem antes da chegada do relicário salvador. Feita Cedo ou Cedo Feita, só de olhar, vou Divagando…

Edição
3709