Mirandela

Eram para ir tocar a Moncorvo, acabaram em Paris

Publicado por António G. Rodrigues em Ter, 2013-07-02 10:53

Quando começaram os ensaios na orquestra Geração de Mirandela, as cerca de duas dezenas de músicos ainda não sabiam bem o que os esperava. A expectativa era a de irem tocar numa cerimónia na barragem do Baixo Sabor, ali bem perto de casa. Afinal, acabaram a tocar nos jardins do Consulado português em Paris, França, no dia da Música, festejado com concertos pelas ruas da Cidade Luz, na última sexta-feira.
“Tinha-se-lhes dito que iam tocar a Torre de Moncorvo”, contou ao Mensageiro o maestro-coordenador José Cepeda, de Mirandela, em pleno jardim do Consulado.
Afinal, tudo não passou de um pequeno bluff, para não causar tanta ansiedade aos músicos de uma orquestra que junta jovens dos oito aos 16 anos.
O projeto chama-se Orquestra Geração e em Trás-os-Montes e Alto Douro é replicado em Mirandela, Murça e Amarante. Tem o financiamento da EDP (que promoveu a viagem a Paris), da Fundação Calouste Gulbenkian e do Conservatório Nacional.
Foram essas três orquestras que cederem cerca de meia centena de jovens músicos para participarem nesta autêntica aventura. “Foi a primeira vez que andei de avião”, confessava, timidamente, Cristiana Mendonça, de Murça. “Foi emocionante. No princípio tive um bocadinho de medo mas foi ótimo”, revelava, ainda nos jardins do Consulado, onde tinha acabado de ser aplaudida. “É uma boa experiência. Posso conhecer outros países e ter oportunidades que os meus pais não tiveram”, frisa.
Os muitos emigrantes lusos que souberam da iniciativa ou que simplesmente iam a passar pela rua não se fizeram rogados. “Bravo! Viva Portugal”, ouve-se no final da primeira de três atuações programadas para esse dia, com um sotaque ligeiramente carregado nos ‘rr’.
Inês Filipe, de 11 anos, já tinha andado de avião duas vezes. Mas não quis perder a oportunidade de atuar no estrangeiro, algo que estes músicos fizeram pela primeira vez.
Em Paris tocaram obras de Maurice Charpentier, Ludwig van Beethoven, Norman Ward, Edward Elgar, perante uma plateia que não regateou aplausos. “Acho que este exemplo que estas crianças dão é extraordinário e é de uma enorme utilidade da promoção do nosso país e dos portugueses e é também um orgulho para os portugueses que aqui vivem”, sublinhava o Cônsul Pedro Lourtie.
O projeto tem tido cada vez mais aceitação também entre os mais novos, que se vão desafiando uns aos outros. Foi o caso de Inês Magalhães, 15 anos, de Amarante. “Falaram-me disto e fiquei interessada. Agora quero seguir música”, revela.
Ana Carolina é outro exemplo de sucesso. Tem 12 anos e é de Murça. Está na Orquestra Geração “há dois anos” mas confessa que, em vez de lhe roubar tempo, ainda a ajuda na escola. “Melhorei as notas. Agora aprendo mais facilmente”, garante. Por isso, também quer seguir música.
E esta é a vertente mais destacada por José Cepeda, o maestro. “A música, trabalhada prematuramente, serve para desenvolver mais a capacidade de concentração. Ajuda-os a ter outro tipo de aproveitamento na escola”, garante.
Por outro lado, “eles adoram e é para lhes dar uma oportunidade de vencerem de outra forma”, explica, com uma convicção: “Muda tudo na vida deles”.
Os dois dias na Cidade Luz foram passados a correr, entre três concertos, mas ainda houve tempo para um passeio por Paris antes do regresso a casa. E ficou a garantia de que já nem o avião assusta e que só o céu é o limite para tanto querer.

Música juntou famílias separadas

Cumpriam-se 12 meses, em agosto, que João Rodrigues, eletricista, natural de Bragança, não via o filho, Tiago, de 13 anos.
Emigrado há pouco mais de dois anos em França, sofre com a distância. Mas espera que esta visita inesperada seja o ponto de viragem. “No Natal não quis vir cá. Mas agora já viu que não precisa de ter medo de andar de avião”, diz, com um sorriso, enquanto mantém a mão sobre os ombros do filho, num gesto protetor.
Mal soube da viagem, João Rodrigues ficou em pulgas. “Foi um bom reencontro. Deu para irmos almoçar”, contou.
Mais tímido, Tiago, a morar atualmente em Mirandela, revela que está na orquestra há dois anos. Mas confessa, para desgosto do pai, que não sabe se vai continuar com a música. “Vai, vai. Todos dizem que tem muito jeito. É como o avô”, diz, a rebentar de orgulho.
Mas este não foi caso único.
Isabel Soares, por exemplo, é natural de Murça. Emigrada em França há quase 40 anos, não perdeu a oportunidade de estar ao vivo e a cores com a prima, apesar de ainda há pouco mais de um mês ter estado de fugida em Portugal. E não escondia o entusiasmo com o reencontro. “Acho isto ótimo. Vim vê-los de propósito”, explica.
Ainda a ver de fora do jardim, pelas grades do Consulado, Isabel Mendonça ganha, subitamente, um olhar nostálgico. “Tenho tantas saudades. E isto sabe tão bem”, garante, enquanto vai desfiado um rol de mágoas. O filho mais velho nasceu, foi criado e estudou em França. Mas, ao contrário do que faz a maioria, optou pelo caminho inverso e rumou à terra dos pais, Portugal. “Felizmente, tem um bom trabalho e está bem”, garante Isabel Soares, antes de abraçar a prima.

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