Vinhais

Maior concentração de diabos saiu à rua

Publicado por António G. Rodrigues em Seg, 2014-03-17 17:17

Ainda não eram as sete da tarde do último sábado, 8 de março, e o largo do Arrabalde, em Vinhais, já estava às escuras. Apenas a fonte ali construída há poucos anos deixava escapar alguma, pouca, luz. No passeio, amontoavam-se já dezenas de pessoas, curiosas com o cortejo que ali haveria de chegar cerca de uma hora depois. À cabeça viria a morte, com a imponência dos seus sete metros de altura , e a sua gadanha, puxada por diabos. Muitos diabos. Mil diabos, que andaram à solta em Vinhais.
Foi o recriar de uma tradição que chegou a estar proibida a partir de meados do século XX, devido à violência que ia promovendo.
Maria Barreira foi ao baú dos 90 anos das suas memórias buscar algumas das histórias  dos diabos que, antigamente, a cada quarta-feira de cinzas, aterrorizavam as mulheres da vila. “Claro que me lembro. Era bonito. Fechávamo-nos num quarto mas vinha o diabo, atirava com a porta e no dia seguinte iam lá por outra. E batiam p’ra catancho”, garante, sentada no beiral de uma montra, enquanto espera a chegada do cortejo que se anuncia pelas colunas instaladas nas ruas da vila. “Hoje é uma festa”, diz, por entre memórias de tempos idos. “Batiam a todos e nós [raparigas] acirrávamo-los de longe e fugíamos. Depois traziam-nos à pedra, ajoelhavam-nos e batiam o que queriam. Houve uma vez um que me bateu tanto que até chorei e, como estava com a cara tapada, ainda hoje não sei quem foi”, recorda, agora com um sorriso. “Ninguém vinha à vila nesses dias, nem às repartições, nem que estivessem abertas. Agora é que já não há ninguém. Os novos, ou morrem de desastre ou têm que ir embora.”
Foi na tentativa de estancar essa hemorragia de gente que a Câmara de Vinhais decidiu, este ano, organizar um evento em torno de uma tradição que se ia perdendo no tempo, como tantas outras.  
Por isso, o vereador da cultura, Roberto Afonso, mentor da ideia, explica que com esta festa, pretendeu-se “fazer a maior concentração de diabos do mundo”. “Temos mil diabos a fazer um ritual de cinzas para nos lembrar que somos pó e em pó nos havemos de tornar, que acabou com a revelação do rosto da morte que cumpre que ‘quem para o rosto da morte olhar, por mais um ano a irá afastar’”, explicou.
Esta foi a primeira procissão com mil diabos, “que é um prolongamento da quarta-feira de cinzas”.
O evento deste ano “superou as expectativas” do próprio presidente da Câmara, Américo Pereira, também ele trajado a rigor antes de subir, escada à cima, à varanda dos Paços do Concelho para ir buscar jovens incautas. “É o primeiro ano e é uma coisa fantástica, que vai pegar mesmo a sério. Superou as expectativas. É uma tradição muito rigorosa. Estou encantado porque reparo que mais de metade dos participantes não são do concelho de Vinhais e até de várias nacionalidades”.
E, de facto, por entre o tinto dos trajes em flanela, viam-se caras sorridentes com olhos em bico, denunciando a proveniência asiática que o fotografar constante, com o telemóvel em riste, fazia adivinhar. Mas também estudantes de Erasmus oriundos do norte da Europa, de África ou do Brasil, para além de vários turistas espanhóis, deram outra cor ao evento.
“É preciso atualizar as tradições, porque há novos públicos. Temos centenas de pessoas que fazem parte de uma multiculturalidade de países”, explicava Luís Canotilho, o autor da figura de sete metros que representou a morte.
Estão criadas as raízes para mais um evento de atração de milhares de visitantes ao Nordeste Transmontano.
A organização esteve a cargo da Câmara Municipal, com apoio do Instituto Politécnico de Bragança, da companhia de teatro Filandorra e do grupo de teatro de estudantes de Vinhais.
Apesar de nem todos os pontos da tradição terem sido cumpridos, como o facto de os diabos deverem andar de cara tapada (como chamava a atenção um turista espanhol, de máquina fotográfica em punho que, ainda assim, acredita que pode ser “uma atração turística para perdurar”), a verdade é que o evento, que terminou com uma explosão pirotécnica que, como previsto, incendiou a Morte e revelou o seu rosto, permitindo que quem para o rosto da morte olhar, por mais um ano a irá afastar.