A Grécia, Portugal e a Europa

Vivemos um tempo onde a vertigem dos acontecimentos deixa pouco espaço para uma reflexão cuidada e que sustente uma visão estratégica a prazo. O mundo, e naturalmente a Europa, são governados por poderes ocultos, não escrutináveis, que têm destruído equilíbrios absolutamente fundamentais que vão do ambiente à economia e da demografia à coesão social. O dinheiro, e o poder que incorpora, está sob a alçada de um punhado de “gigantes” que amedrontam e condicionam a vida das sociedades e dos povos. Ele é através dos mecanismos de crédito, ele é através das “famosas” agências de rating, ele é através dos “endeusados mercados”, todos instrumentos ao serviço de interesses obscenos que, despudoradamente e sem sombra de escrúpulos, têm condenado a condição humana á maior das humilhações e servilismo, aniquilando a sua capacidade de decidir e de impor regras de governação justas. Vivemos, pois, num mundo onde o trabalho não é respeitado e onde a finança capturou a economia e tudo o que uma cidadania responsável pode e deve fazer.
A vitória do Syriza na Grécia foi a expressão da revolta de um povo que tem sido humilhado e ofendido no que de mais elementar se exige como respeito pela condição e dignidade humanas. Ninguém acredita que os gregos se tenham transformado num povo de esquerdistas radicais identificados ideologicamente com o Syriza; o que se passou na Grécia tem o mesmo gérmen do que se está a passar em Espanha, na França e em tantos outros países onde a aderência a partidos radicais tem como único denominador comum o desespero, a revolta e a indignação em relação às políticas de austeridade que só têm conduzido os países com défices elevados à pobreza e a á sua desestruturação social e destruição económica. Portugal faz também parte desse clube, sem embargo o discurso leviano e cínico de um governo que sem projecto cumpriu com obediência sacramental o programa da troika e que, em alguns aspectos, se algo fez, foi só intensificar, ainda mais, as políticas e orientações da Troika que nos conduziram a um desemprego efectivo (o que não tem a ver com as estatísticas oficiais que contam como empregados os que estão em cursos de formação, estágios profissionais, requalificação, etc) de mais de 17% a que se junta quase meio milhão de gente, a maioria dos quais jovens altamente qualificados, que emigrou e, com lágrimas e saudade, levou na mala a revolta contra um Primeiro Ministro que os mandou emigrar e os abandonou à sua sorte.
O que hoje está em cima da mesa é saber se os países do Sul (a que se junta a Irlanda) têm ou não condições para continuar a pedir emprestado para pagar o que devem! É que, se um país não crescer economicamente não gera saldos para poder pagar a quem deve e o que deve e, mais, esses saldos têm de ser ajustados ao serviço da dívida (amortizações de capital e juros) que têm de ser pagos. Porque, a não ser assim, a condenação é o empobrecimento, ou seja, quando chega o prazo de vencimento de uma dívida, se não houver um saldo orçamental que a permita pagar, é necessários vender ativos. E é isso que tem sido feito. Tal e qual como nas empresas e famílias. Quando uma empresa chega ao fim do ano e tem prejuízo não consegue pagar dívidas, a não ser que venda o património (ativos) e se o fizer compromete a sua manutenção e o seu desenvolvimento futuros. É, tal e qual, como acontece com os países.
Chegados aqui impõe-se naturalmente a pergunta: em quantos países é que as políticas de austeridade nos termos definidos pela Troika ou pelo FMI resolveram os problemas estruturais e de competitividade e relançamento económico desses países? Em nenhum. Resta, portanto, que no quadro da União Europeia sejam discutidas as políticas que permitam aos países mais endividados relançar as suas economias e, claro está, não chega o BCE comprar dívida soberana nos mercados secundários nem descer a taxa de juro a níveis próximos do zero, porque, tal como definiu Keynes, estamos já naquilo a que designou por “armadilha de liquidez”. É necessário, acima de tudo, que os países com folga orçamental como a Alemanha, entre outros, tenham políticas orçamentais expansionistas, ao mesmo tempo que as dívidas dos países do sul passem a ser pagas em períodos longos de tempo e com carência até esses países registem crescimento económico.
Mas toda esta mudança de orientação política ao nível da Europa só é possível com a disponibilidade da Alemanha, com a concordância da França e dos países do Norte da Europa e, sobretudo, com uma acção conjunta e concertada dos países do Sul, o que com os governos atuais de Portugal e de Espanha, caracterizados pela incompetência e pela subserviência às políticas de austeridade patrocinadas pela Alemanha, é uma equação sem solução à vista.
Talvez por isso, dadas as eleições que ainda vão acontecer em 7 países da Europa sejam uma oportunidade para que 2015 seja o ano da viragem e da esperança.