A opinião de ...

Amadeu Ferreira: um luxo

Padre, médico, professor: no discurso rural português, fazia-se diferença entre alma, corpo e espírito; entre vocação, enquanto chamamento do Alto, e profissão, arbitrada pelos homens. O mestre-escola nem sempre cursara, e bastava-se minimamente habilitado; médico ou físico podia ser um barbeiro sangrador, alguma discreta mezinheira. Já padre era um estado vinculado ao Além, exigindo, afora uma fé poderosa, doze anos penitentes, de indiferença às seduções do mundo e sacrificado estudo. Outros cursos venciam-se pela metade, ou nem isso. Um ministro coroado significava refrigério último para vidas cansadas, que a medicina não salvara. No seu lado festivo, uma voz bem colocada, o gesto paramentado, a centralidade de igreja ou alturas de branca ermida, tudo conduzia ao sonho de multiplicar tonsuras.
Na lotaria desse desejo, jogavam forte questões de logística, inseguranças, débil situação económica. Sem meios ou família para vigiar sete anos de externato, um seminário descansava pais ‒ alguns, em breve, emigrados ‒, e, com sorte, corroborando cura, sorria a isenção parcial ou total de despesas, não raro, cobertas por alma nobre ou beataria investindo no Juízo Final.
Faltava um ingrediente: vocação. Hoc opus, hic labor est, diria Virgílio. Agora é que eram elas. Para evitar jogo no feminino, vertíamos: aqui é que a porca torce o rabo. Lá viria vida de gemidos, pois não bastava ter acedido ao claustro: urgia dar mostras de devoção, mesmo em férias, submeter-se a regulamento impresso, juntar dois dedos de inteligência, mais necessária numa retroversão que na fácil aceitação da ortodoxia teológica. Fôssemos atentos: o chamamento viria do Alto; e, fidetecas ‒ seja, depósitos de fé, borbulhante ‒, ajudaríamos os nossos legítimos superiores na espinhosa tarefa de eleitores. Enfim, um tirocínio de doze anos culminava em escolhidos do Céu. Eis-nos marcados, ungidos, qual o mesmo Cristo. Alegrem-se os Céus e a Terra. A primeira missa era de consagração. Estiveste quase lá, meu velho Amigo; ainda pregaste.
Vi-te, era eu adolescente, no salto de Filosofia para o curso de Teologia, entre o respeito de condiscípulos e alguns mestres, já noutra ala do edifício, sem camaratas. Cavava-se uma distância ‒ mas prestígio, dizia-me, era ter respirado ali Afonso Praça e seu jornal Cá p’ra nós, ou o vosso Radar. Fundei, então, jornais de parede; e quando, pela idade, me sentia desconsiderado, percebi que falsos mestres, sem pinga de bondade, não deixariam de ser maus, desinspirados eleitores, narcotizando o próprio Deus, cuja tutela evocavam. Com homens imperfeitos quanto eu, chamados embora, não seríamos escolhidos.
A mesquinhez dos educadores é mais grave em alegados ministros de Deus, que d’Ele colhem inspiração; e, ao drama de ser, em espírito bem formado, junta-se o drama de viver com outros, por quem nos sentimos responsáveis - família, amigos, país, universo. A fé só existe enquanto corrente de humanidade; não é um assunto pessoal. Face à totalidade - conceito perigoso, servindo às religiões, e às ideologias maiores do século XX com sua soma de desastres -, aproveitamos sucedâneos, seja partido, região, língua...
Falhada hipótese tão esperançosa, em que natureza, acidentes e conflitos esculpiram feições em barro contingente, a alternativa era assentar no precário durante quase duas décadas. Ser estudante-trabalhador e professor, com o intervalo ainda religioso de buscar um sentido na luta partidária, em que se replicava educador de classe. Muitos desses educadores informais velavam, afinal, por futuras mordomias.
Nos teus 40, encontrámo-nos frente à Faculdade de Direito, na Cidade Universitária: era uma nova vida, seguida da regulação do mercado e valores mobiliários. Não nos víramos na década de 80, por ausência minha no estrangeiro. Revimo-nos em 2002, na Quinta da Ribeirinha, Santarém. Já, aí, te lançaras na dignificação da língua-mãe, provendo-a, além do mais, de um corpus bibliográfico, seu tesouro maior. Na última década, só tenho conversas, almoços, viagens, tarefas em comum, a agradecer. No conchego amigo, compreendeste, meu doce vizinho, que há uma diferença entre ser generoso - melhor, equitativo - e ser pasto de arrivistas. Encheste, enfim, o copo de sentido, com que brindávamos regularmente. És, Amadeu Ferreira, um luxo na minha vida.

[Excerto de depoimento em Teresa Martins Marques, O Fio das Lembranças. Biografia de Amadeu Ferreira, Lisboa, Âncora Editora, 2015. Lançamento no dia 5 de Março.]

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