A opinião de ...

A INFÂNCIA DOS DIAS

 
A mulemba e o grão de areia
Frei Soeiro
 
Não sei bem se como o filho pródigo dos Evangelhos, se como o peregrino de “Os Simples”, regresso a estas páginas. Houve tempo em que aqui me sentia em casa. Tão à vontade que me autorizava a pensar em voz alta e a ir, rua abaixo, como quem chama amigos para a mesa. Não sendo tão longe esse outrora no tempo, é distância que me proponho encurtar.
Não é circunstancial nem frase de efeito começar por felicitar o “Mensageiro de Bragança” pelos 75 anos de vida, de partilha e de serviço, saudavelmente cumpridos no passado mês de janeiro.
Ainda que nunca nos tivéssemos encontrado pessoalmente, de longe, portanto, sempre nutri por Amadeu Ferreira (1950-2015) grande estima e apreço. Não sendo indiferente à sua dimensão de jurista, poeta e escritor, fui particularmente sensível ao seu amor pela língua mirandesa. E se celebro as admiráveis traduções de “Os Lusíadas”, “Mensagem” ou os dois volumes do irredutível Astérix, lamento profundamente que nunca tenha chegado a traduzir, como sei foi sua vontade, “O lodo e as estrelas” do padre Telmo Ferraz. Teria sido outro monumento vertido para mirandês.
“A mulemba e o grão de areia” é o mais recente livro de Telmo Ferraz, sacerdote da diocese de Bragança-Miranda ao serviço da Obra da Rua/Gaiato desde a década de 60.
A vida de cada um tem muitas vidas, mas a vida de alguns de nós parece carregar no peito o incansável coração do mundo. Assim, a meus olhos, a do padre Telmo Ferraz. Para trás – em Picote, em Dange-ia-Menha, no levantar casas e vidas no Culamuxito, no auxílio às vítimas da guerra, em Angola –, deixou o tempo da ação. Agora, livre de amarras secundárias, será talvez mais ainda o tempo da contemplação e da ação de graças, porventura o tempo da sabedoria, que é o outro nome do tempo de Deus.
Aos 90 anos, cada vez mais oculto, diáfano, invisível – e por tudo isso grande! –, padre Telmo continua a partilhar a vida como quem partilha o pão.
 
Telmo Ferraz, “A mulemba e o grão de areia”. Editora Alforria. 160 pp

Edição
3516