A opinião de ...

E eis-nos em plena caminhada quaresmal!

Como todos os anos, desde que me lembro desta peregrinação espiritual mais exigente e mais estimulante. Ou seja, desde os meus oito anos de idade. Ia para Braga, ficando em casa acolhedora dos Santos da Cunha e era só atravessar a rua para as orações diárias, que culminavam na Semana Santa, desfilando – transido de frio – sexta bem pela noitinha e rejubilando com a celebração de sábado a caminho de domingo.
A primeira adolescência conheceria traços ainda mais marcantes. Como a voluntária ausência de festas, de danças, de libações próprias da idade e dos convívios escolares. E ficaria para sempre a atenção redobrada à oração, à meditação, ao balanço de vida neste caminho que vamos fazendo na busca da eternidade.
Pelos catorze ou quinze anos, o Concílio Vaticano II aditaria um traço mais: a ideia de que a eternidade pode e deve começar já, nesta vida terrena, que é bem mais do que um vale de lágrimas, é um apelo a essa construção de eternidade.
Balanço de vida, pois, é aquele que nos propõe e exige este tempo quaresmal.
Como vamos de sentido de vida? Pessoal, familiar, profissional, cívico.
Como temos encarado e vivido as Bem-Aventuranças? Não vivido, vivido nos intervalos, vivido distraidamente, vivido com altos e baixos, vivido com atenção privilegiada a uma ou algumas delas e ignorando as demais?
Como temos olhado para os outros e o seu quotidiano? Nada, o mínimo possível, aos bochechos, com algum empenho mesmo que limitado?
Que papel tem a Fé na nossa vida? Reserva para o fim de vida, género garantia de um bilhete para o Além, auto-consolação para os dias penosos, alternativa ao
pensamento positivo dos manuais de terapia motivacional, incentivo para passos concretos pessoais, imperativo de aproximação aos demais?
É à luz de perguntas tão simples como estas que devemos, depois, responder a questões mais complexas.
Como, por exemplo, tenho ouvido devidamente o que me dizem e pedem ou propõem familiares e amigos? Tenho feito um esforço para que a aula, a palestra, o programa televisivo, a reunião na Fundação sejam mais do que repetições distantes ou pro formas sem imaginação e empenho? Apetece aceitar convite ou incumbência que podem dar muita satisfação a outros, mas estragam horas de lazer, calendários há muito fixados, recreios sem incómodos e maçadores? Tem lógica juntar aos problemas quotidianos mais as notícias da política de cá e de lá de fora? E de que serve tentar mudar o que está mal se são sempre os mesmos a mandarem, provavelmente para eles e os seus interesses?
As questões poderiam multiplicar-se.
A Quaresma é a ocasião ideal para parar uns minutinhos, e para avaliar onde estamos e como estamos, nós e a nossa relação com o mundo, que o mesmo é dizer os outros. Arrumando ideias e procurando definir prioridades nas nossas encruzilhadas.
Para que a Páscoa seja uma ressurreição no culto, mas também na nossa vida.
Sem panaceias enganadoras. Mas com uma certeza: para nós, Ele existe e está sempre connosco. Só é preciso que nos lembremos de o chamar a ajudar ao nosso balanço de vida.

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3517