Abade de Baçal

O homem que ajudou a contar a história do Nordeste Transmontano

Publicado por AGR em Sex, 2015-04-17 11:17

O maior vulto cultural do Nordeste Transmontano completaria 150 anos no passado dia 9. Uma data que serviu para o arranque das comemorações dos 150 anos do Abade de Baçal, no mesmo ano em que o museu que ostenta o seu nome assinala o seu centenário.
“É uma data muito significativa para nós. É uma figura e um ícone da região, acarinhada por todos os transmontanos. Foi um construtor da nossa identidade”, recorda Ana Maria Afonso que é, desde 2010, a diretora do Museu.

A última quinta-feira foi, por isso, um dia de grande azáfama, com diversas iniciativas que pretenderam assinalar a data tão especial, recordando o vulto que foi etnólogo, etnógrafo, historiador e sacerdote, com apresentação de livros, uma conferência sobre o próprio Abade, a abertura de três exposições (de arte sacra, comissariada pelo próprio bispo D. José Cordeiro, que celebrou mesmo uma eucaristia na capela do Museu, uma exposição de Graça Morais e uma outra de Abel Salazar, amigo do Abade de Baçal), a apresentação de um selo e um postal comemorativo, numa edição dos CTT ou a apresentação de um vinho especial, 200 garrafas de um reserva de 2011, cultivado e engarrafado pela Santa Casa da Misericórdia de Macedo de Cavaleiros e que apenas pode ser comercializado no Museu . “Era importante reunir alguns amigos do Abade e fazer edições. Era alguém que amou muito esta terra e lutou muito por ela, sobretudo para criar o futuro”, sublinhou Ana Maria Afonso.
E este é apenas um dos marcos da presença de Francisco Manuel Alves na região.

Filho do campo e de lavradores, nasceu na aldeia de Baçal mas constituiu-se como a fonte onde todos os investigadores sobre Trás-os-Montes vão beber. A dimensão da investigação é uma das mais conhecidas de Francisco Manuel Alves mas o título de Abade representa a dimensão religiosa, que também foi marcante. Uma dimensão que o atual bispo da diocese de Bragança-Miranda, D. José Cordeiro, reconhece. “É de uma fé granítica. Além de transmontano é um cristão convicto e foi um sacerdote que exerceu o seu ministério e conseguiu conciliá-lo com as várias funções que foi assumindo na sociedade, inclusive de diretor do museu regional, na altura, de vereador municipal, mas salvaguardando sempre a identidade cristã. E, depois, a sua naturalidade, a sua humildade e o estar sempre ligado à terra, às raízes, sem nunca perder a sua ligação à família, à Igreja, ao Nordeste Transmontano”, explica o Prelado, que atribui ao Abade de Baçal um papel preponderante na defesa do arquivo diocesano, um dos mais completos do país ainda em posse da Igreja.
“Também me causava alguma interrogação como é que a diocese perdeu a Casa Episcopal, que hoje é o museu dele, mas não perdeu o arquivo. Foi por causa dele. Os bispos que estiveram logo a seguir à implantação da República pediram ao Abade de Baçal que, a par da investigação que fazia, trouxesse das paróquias o espólio mais importante. E é graças ao Abade de Baçal que temos um arquivo diocesano incontornável neste país, porque os outros estão quase todos na posse do Estado”, recorda D. José Cordeiro, para quem “a figura do Abade ajudou a conciliar muitas atitudes, muitas pessoas, muitas circunstâncias que ocorreram no tempo dele”, numa altura de grande atribulação na diocese. “Há muita gente que pensa que o Abade dedicou-se àquilo para que era pago pelo Estado mas não ligou ao ministério e não tinha ligação com a Igreja. Não é verdade. Nunca perdeu a lealdade com o bispo, a fidelidade à Igreja, a Cristo e ao seu ministério”, conclui.

O lado mais visível desta figura é a investigação histórica publicada nas “Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança”, um trabalho que trouxe luz sobre uma região esquecida pelo tempo. “Antes dele, o que havia era tudo muito esparso. Teve a preocupação de compor um todo, de juntar as várias peças e tentar dar uma explicação global a esta região. Antes dele não há nada que se compare, com esta envergadura, para nenhuma região de Portugal”, sublinha Luís Carlos Amaral, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a quem coube a responsabilidade, na quinta-feira, de trazer um pouco de luz sobre esta figura. E se, antes dele, pouco havia, depois, “não haverá muito mais, não a esta escala”.

“Ele é alguém que, partindo de uma base regional tem uma clara dimensão nacional”, sublinha o investigador. “Acho que é mais do que tempo de ser tratado como uma figura de dimensão nacional”, frisou.
O presidente da União de Freguesias de Sé, Santa Maria e Meixedo entende que “toda a recolha que fez, toda a história que conseguiu colecionar, é importante para nós, freguesia onde está o museu, mas para todo o distrito. Faz-nos entender como era e, nalguns casos como deveríamos seguir, dando-nos achegas para o futuro. Figura injustiçada? Penso que sim. Tem um museu e deveríamos pensar no que foi o Abade mas com outras câmaras do distrito”, frisou.
No mesmo dia foi ainda apresentado um cancioneiro, uma recolha de cânticos por parte do Pe. Belarmino Afonso, cuja apresentação esteve a cargo de Mário Correia. “O Pe. Belarmino Afonso efetuou um notável trabalho de recolha de músicas, de contos, de cantos, de romances, do Nordeste Transmontano. Editámos cantos de Vila Flor e Vimioso. Gravou gente muito idosa e numa altura em que muitos destes cantos estavam associados a um modo de vida. São jóias da cultura transmontana”, explicou.

Foi ainda apresentada uma edição especial da revista Brigantia, agora a cargo da Comunidade Intermunicipal Terras de Trás-os-Montes, que ficou a cargo de Telmo Verdelho.
“É um volume especial da revista Brigantia, que publica a última obra inédita do Pe. Ernesto Sales. Foi um colega do Abade de Baçal. Frequentaram o seminário de Bragança no final do século XIX. Fizeram parte de uma verdadeira plêiade de estudiosos. Gente com amor à terra, que produziu o melhor da cultura e história da região.
Nasceu em Mogadouro mas adotou Mirandela como naturalidade. Começou aos 20 anos a escrever textos sobre a história de Mirandela. Mantiveram contacto permanente.

Foram duas pessoas que se motivaram reciprocamente. Tem de se lembrar a própria obra do Pe. Ernesto Sales para se compreender a obra do Abade.
Foi capelão militar em Lisboa, foi responsável pela biblioteca do exército e desenvolveu grande atividade de pesquisa na torre do Tombo e outros arquivos. Escreveu textos sobre a história de Mirandela e planeou cinco volumes. O primeiro foi concluído em 1916 mas ficou inédito até hoje. Os outros também não foram publicados. Em 1935 deu por concluída. Remeteu-a para o Museu do Abade”, destacou Telmo Verdelho.
 
Diretor Regional enaltece poder de execução do Museu Abade de Baçal

Já o presidente da Câmara Municipal de Bragança, Hernâni Dias, procura resolver um problema com mais de cinco anos, que é a degradação acelerada da casa que pertenceu em Abade, na aldeia de Baçal. O atual proprietário deixou de ter capacidade financeira para a manter e, nesta altura, o presidente da autarquia, Hernâni Dias, admite que decorrem negociações para a aquisição do imóvel e posterior recuperação, de forma a ter “um destino que seja consentâneo com a personalidade a quem pertenceu”.

“Francisco Manuel Alves é uma figura ímpar da escola, quer pela sua função como sacerdote, quer por todo o trabalho que culminou na edição das memórias do distrito de Bragança.
Era uma personalidade, à altura, com uma visão fantástica da realidade, com uma perspetiva impressionante e diferente do que seria o contexto à época”, sublinhou o autarca.

Presente na sessão solene esteve, também, o Diretor Regional de Cultura do Norte, António Ponte, que destacou “o dia importante para a cultura nacional. É uma figura incontornável no domínio da cultura, como etnólogo, historiador, como antropólogo, como etnógrafo mas, também, como clérigo. Queremos que a comemoração se prolongue ao longo do ano e chamar a atenção para esta figura incontornável da cultura portuguesa”, afirmou António Ponte, para quem a falta de meios dos museus nacionais “não é motivo para que não se fazem coisas. É o que acontece aqui”.
“O mais importante é que haja vontade, empenho e ideias”, concluiu.