A opinião de ...

Tumulto

Portugal está a entrar num período politicamente turbulento. Qualquer que seja o desfecho das próximas negociações, votações e eleições, haverá muito mais zangas, polémicas, acusações e irritações. A situação política e social vai-se agravar fortemente.
Isso é uma coisa natural. Estranho foi o longo período em que o país conseguiu, após o colapso de 2011, viver com estabilidade e concórdia, apesar do intenso sofrimento e amargas queixas. Quase todos os nossos parceiros, mesmo aqueles com situação social mais favorável, sofreram muito mais acrimónia e incerteza que nós. Este facto mostra uma das características mais curiosas dos portugueses: perante desafios e dificuldades, em geral unem-se e enfrentam os obstáculos, conseguindo resultados que espantam todos. Basta lembrar o período revolucionário de 1974 a 1985, que incluiu 16 governos, a perda seis colónias e dois programas de ajustamento com o FMI. O choque foi terrível e a confusão muita mas, em vez de cairmos no caos, conseguimos no final entrar na Comunidade Europeia com a economia equilibrada, iniciando nova era da história.
O problema é a outra face da mesma moeda: quando as coisas começam a acalmar, renascem os interesses, reacendem-se as discussões, ressurgem as lutas. É o que mais uma vez acontece. A economia começou a crescer há dois anos e o programa de ajustamento terminou há um. Está na altura de principiarem as complicações políticas, intrigas partidárias, manobras institucionais. Estamos em risco de perder todo o esforço anterior.
Perante isto a reacção comum reduz-se a encolher os ombros e lamentar este triste país. Nunca saímos da cepa torta precisamente devido a esta tacanhez truculenta e saloia. E isto, se é verdade em geral de todo o povo, é ainda mais verdadeiro dos nossos adversários, que são estúpidos, maus e corruptos. Não admira a crise e o lastimoso estado.
Quem diz isto não entende que a sua atitude é precisamente manifestação do mal que pretende denunciar. Lamentar a mesquinhez nacional é em s mesmo uma posição mesquinha. Participar na raiva colectiva contra os responsáveis pela desgraça, quem quer que coloquemos nessa categoria, é contribuir para aquilo mesmo que se deplora. O que precisamos nesta fase é uma pequena dose da unidade que demonstrámos na dureza anterior.
Neste quadro a única atitude relevante é respeitar todos os participantes compreender as várias posições e construir pontes entre eles elas. Mesmo face aos que parecem mais opostos e irredutíveis. Todos os intervenientes, cada um à sua maneira, amam Portugal e pretendem melhorá-lo. Em geral fazem-no apaixonadamente. O mal está no facto de cada um ver apenas uma parte de um quadro vasto e complexo. Por isso se zangam tanto pela cegueira do adversário, sem tomarem consciência da sua. Não é nada fácil, mas o único esforço razoável, nestas circunstâncias, é o diálogo, a troca de impressões, a busca de consensos. Se conseguirmos isso o país conseguirá ultrapassar esta terrível crise melhor do que as anteriores.

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