A opinião de ...

Para apurar a raça dos eleitos...

Tomei por muito infeliz o argumento da parte do primeiro-ministro na consideração de que o seu opositor principal fazia a defesa dos exames suportado no desiderato de apuramento da “raça dos eleitos”. Subliminarmente, tal asserção parece remeter para tempos negros da história recente de um holocausto que somente aos empedernidos não é capaz de arrepiar. Repudio, por isso, o argumento esgrimido, por se me pontificar ofensivo. Aliás, a “raça dos eleitos” tem sido reiteradamente apurada nas nomeações para cargos em função de pedigree familiar, amiguismo, compadrio, cartão partidário, desprezado o mérito. Não acredito em sociedades de medíocres, mas de sujeitos portadores de competências e de habilidades que as façam progredir, absolutamente necessário se tornando fazer saber para saber fazer. Torna-se-me incompreensível o facilitismo ensurdecedor que se pretende imprimir em percursos académicos, conducente a um pôr em questão a valia de tantas licenciaturas, mestrados e doutoramentos. A seriedade tem que ser imposta desde o início dos percursos académicos. Por outro lado, a ninguém aproveita e a todos prejudica o adiamento de insucesso, fortalecendo-o progressivamente. E para sucesso de insucedidos, basta. Defendo, sem mais, seriedade, honestidade, rigor. As novas oportunidades não ganharam além do estatuto de uma descoberta oportunista para muitos: distribuição de “habilitações” a troco de nada, fazendo de iletrados ignorantes ignorantes iletrados e permitindo a outros, seus doutos formadores, a obtenção de proventos pouco suados. Neste pormenor, salvaram-se aqueles que, honradamente, viraram as costas à desonra.
O trabalho do aluno terá que ser seriamente monitorizado, como deve ser monitorizado o trabalho de qualquer trabalhador que tal qualidade preze. É absolutamente necessário que todos e cada um prestem contas do trabalho que realizam e sejam retribuídos em razão dessa mesma prestação. A avaliação académica não será persecutória (ninguém assim a desejará), mas tem que fornecer elementos sobre as capacidades de cada um para o futuro exercício de uma função, mais humilde, ou menos humilde, se as funções se podem avaliar em termos do grau de humildade que comportem, ou possam comportar. E o exercício de qualquer função não se pode compadecer com míngua de conhecimentos, saberes, habilidades. Como dito, há que fazer saber para saber fazer. Entre uma avaliação final, que pode ser condicionada por circunstâncias próprias ou externas, e aqueloutra contínua, preferível se fará a segunda, contanto que séria, honesta, rigorosa. Possivelmente, atentos critérios tão distintos utilizados por tão distintas instituições, não será desacertado que um crivo idêntico se aplique a todos, naturalmente com um peso sujeito a ponderação. Os mais idosos passámos, desde idades tenras, por uma infinidade de exames, em condições bem distintas das actuais, adversas, e não terá sido tal circunstância que nos terá produzido traumas. Pessoalmente, bem mais me traumatiza tropeçar com a incompetência, a ignorância, a pobreza de saberes. O que pode incomodar os governantes não se prende com a existência de exames, porém a consciência menos leve da incapacidade, décadas a fio,  de oferecerem a todos iguais oportunidades para os enfrentarem... Anulem a escola massificada e promovam a escola de massas...
Escrevo segundo a antiga ortografia.

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