Memórias da minha infância

Subia aos terceiros da minha casa, daí observando a natureza, nos seus contrastes e mutações, sobre uns e outras cogitando. Tantos coloridos primaveris, por oposição àqueles cinzentos tristonhos, meses após. Assustador o espectáculo do ribeiro galgando margens, engordado pelas chuvas copiosas que os céus derramavam sobre as terras, quentes ou frias, campos alagados, porventura menos por força das águas que tudo arrasavam do que pela sua vontade de se insurgirem contra as margens que, teimosamente, as comprimiam. Ia ao encontro do meu Pai, ao prado, a propriedade que melhor conhecia, reprodutora ímpar de energias, força biológica intensamente renovadora, ora para lhe levar algum recado mais urgente da parte de minha Mãe, ora, simplesmente, para o visitar, dele matando saudades. Atravessavam-se-me no caminho um ou outro lagarto, indiferentes à minha inocência, e tinha que passar com o cemitério ali ao lado. Mas era a passagem pelo nicho do Senhor dos Passos, de manto roxo vestido, coroa de espinhos cravada, sangue na face, envolto em escuridão,  que mais me impressionava e que fazia em correria, sem uma só olhadela para trás. Deliciavam-me, noite feita, os colos do meu Pai e do meu Avô, histórias contadas com carinho, uma após outra. E, quantas mais, mais eu pedia. Apreciava os restos de terra moldados pelas botas do meu Pai e que as mesmas iam deixando pelo chão, as primeiras esculturas do meu conhecimento, graciosas, delicadas. Saía para o centro da aldeia, para me encontrar com pares meus, aí enriquecendo o tempo disponível, que era muito, em segurança e em liberdade. Absolutas, uma e outra. Facilmente se escolhiam os amigos, porque amigos eram muitos, provindos de famílias numerosas entre numerosas famílias. Daí se projectavam e realizavam as aventuras da ingenuidade e da inocência. Brincava muito, uma vezes sozinho, outras tantas na companhia de vizinhos e distantes. Os brinquedos eram parcos, mais os fabricados com o engenho e a arte dos nossos irmãos mais velhos do que os adquiridos, porque a vila ficava longe, para lá de caminhos tortuosos, somente percorridos em casos e épocas de absoluta necessidade. Verdade se diga que, no desconhecimento de outros, qualquer bola de trapos ou papagaio conseguido à custa de papel vulgar e estrutura de ripas de cana faziam as delícias de todos nós. Lembro-me da minha primeira bola de borracha, verde, oferecida não sei por quem, contributo para a minha felicidade de então, património assinalável a que poucos tinham acesso.  A caminho do rio, campos verdejantes estendiam os braços, acolhedores das sementes que, tempos depois, plantas feitas, alimentariam bocas diversas. Com tanta água a seus pés, sangue não lhes faltava pelas suas veias e artérias. A roda monumental, ainda hoje aí existente, cumpria fielmente a sua missão na rega das terras, empurrada pela força das águas levadas ao seu encontro, num ruído que, como os demais, quebrava o silêncio e as palavras dos passantes. Interrogava-me, com incómodo indisfarçado, sobre o destino de alguém que, atraiçoado pelas pedras escorregadias que lhe faziam vizinhança, pudesse ser sugado por aquela corrente, avassaladora para o meu entendimento. Mas logo sossegava o espírito chegado à margem mais ampla do rio, onde as mulheres lavavam as roupas da família, imaginando-me deleitado sobre as suas águas, metido num caixote de sabão, navegando, navegando os meus sonhos de criança...
Escrevo segundo a antiga ortografia.