A opinião de ...

O elegante senhor

Contaram-me ontem que, um dia destes, um senhor alto e magro, bem vestido e aprumado, depois de discretamente se assoar, afinar a garganta, dar um jeito à gravata e assumir um tom de voz claro, firme e forte, pronunciou um aguardado, grave e expectável discurso para uma plateia convocada para o Clube Desportivo de um dos subúrbios daquela imensa cidade:
- “Portuguesas e Portugueses! – assim começou - Senhoras e Senhores! Público em Geral! Boa noite a Todas! Boa noite a Todos!
Nesta importante missão que aqui me trouxe, oportuna e amplamente divulgada, é meu dever, em primeiro lugar, apresentar-me como o grande benfeitor, aquele que, até nas circunstâncias mais difíceis, quanto quer tudo pode. E mais uma vez reiterar que nunca deixei de lutar para sustentar as minhas elevadas virtudes, as minhas ambições, a minha solidariedade e dar a conhecer os projetos que constantemente me ocorrem, que logo faço apreciar e tenho de concretizar, com vista a melhorar a vida – a minha e a vossa. [Pausa para molhar a boca e passar, de relance, um olhar pela assistência que freneticamente bate palmas].
Sabem, Vossas Excelências, Portuguesas e Portugueses, Senhoras e Senhores, Público em Geral, que esta minha forma de estar na vida implica trabalhar arduamente sem horários, derrubar obstáculos - com violência, se for preciso - desvalorizar feridas, desmentir acusações, minimizar e pôr de lado aqueles que me querem criar problemas e calar os que venham falar de mim a querer lidar uma ditadura que, traiçoeiramente insinuante, confesso, poderei impor a quem trabalha, como medida de uma desejada e alcançável ordem e disciplina.
Quando alguém me idealizou, me deu força e ordenou andar por este mundo adormecido em relação à missão que me foi atribuída, não imaginou os problemas que um dia iria causar.
Manobrando eu o sangue que circula nas veias deste mundo e faz com que este e outros mundos a descobrir funcionem, tenho comigo o poder de fazer e desfazer, criar e alterar, conforme me for ordenado por alguém mais alto do que eu e nem eu próprio conheço. Não conheço nem me é devido conhecer. Basta-me obedecer e acreditar”.
A esta altura, a plateia começava já a mostrar sinais de inquietação – uns bocejando, outros balançando os pés e coçando a cabeça e ainda outros, disfarçadamente, espreguiçando-se.
Atento como sempre, o elegante senhor percebeu que tinha chegado o momento
de revelar o motivo pelo qual ali se encontrava. Tossicou, bebeu o seu golo de água e alçando um pouco mais a voz, continuou:
            “Pois bem. O grande motivo que aqui me trouxe … [no meio da assembleia, fez-se tal silêncio que se ouvia o zumbido dum mosquito], o grande motivo que aqui me trouxe, repito, foi para vos comunicar que, num prazo de três meses, vão ter que abandonar as vossas terras e as vossas casas… [perplexidade na assembleia] todos os vossos bens”.
            Sobrepondo-se dificilmente a um alarido geral, concluiu dizendo que alguém decidiu tomar conta daquela área, precisamente daquelas terras, para ali ser construído um complexo (não revelou qual) que a esse alguém iria ser fonte de grande rendimento. E, numa breve brecha que se fez naquele alarido, avisou que, se dentro de três meses as terras não estivessem libertas, iriam arrepender-se. E saiu sem dar quaisquer explicações.
            A plateia dispersou, lamentando a sua impotência contra quem assim a intimou.
            Terra limpa três meses depois, começaram as obras que se arrastaram por dois longos anos. E durante esses dois longos anos, o povo foi vivendo … e ainda vive em total miséria, sem que ninguém lhe acuda, clamando a Deus por justiça.
 

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