A opinião de ...

31 de Dezembro

No último dia de cada ano manda a tradição que se façam festas em honra do ano novo pedindo aquilo que, na maioria dos casos, depende de todos e de muito poucos (paz, erradicação da pobreza, saúde e, em geral, felicidade).
Tornou-se um lugar comum dizer que o mundo está perigoso e que o paradigma da desigualdade tem agravado as tensões e a iminência de conflitos de proporções cada vez mais trágicos.
 O ano de 2016 termina com sinais de esperança pouco animadores, apesar de Portugal ter ganho, pela primeira vez, o Europeu de futebol e o Eng.º António Guterres ter sido eleito secretário geral da ONU. Fez bem à auto-estima coletiva mas o impacto nos valores da justiça, da fraternidade e da solidariedade nada ganharam com a vitória no futebol, e a eleição de António Guterres é, para já, só uma bruma de esperança.
2017 começa sem que tenham acabado as crises humanitárias que envergonham o mundo e questionam os valores da civilização que construímos, com o reacender da guerra fria entre Moscovo e Washington, com a perversa eleição (sabe-se lá como!!) de um “pateta raivoso” para a presidência do Estado mais poderoso do mundo, com a latência cada vez mais próxima da destruição, e quiçá do fim, do projeto europeu, com um sistema financeiro mundial à beira da rutura e sem que se vislumbre uma possível reforma que recentre o seu funcionamento de acordo com regras que impeçam, a tempo e horas, o descalabro e a “roubalheira” que este modelo permite e incita, com grande parte dos países em vias de desenvolvimento mergulhados em profundas crises soberanas e aniquilados por ditaduras cleptocráticas que sobrevivem com a conivência de interesses das grandes potências, com a subtracção da justiça a uma espécie de “justiceirismo” feito nas redes sociais e nos media, onde os supostos protagonistas da justiça contribuem, sem escrúpulo nem zelo, para esse “infame peditório”, com a emergência de fenómenos populistas que se alimentam do terrorismo sem rosto e dos processos de desagregação dos poderes políticos instituídos, enfim, um rol de problemas que fazem parte de uma causa endémica que transformou o valor das pessoas, enxertado nos valores da civilização moderna, nesta coisa espúria das “coisas” que somos e que temos, sem regra nem limites para as conseguir. Dir-se-á, no sentido figurativo, que retrocedemos à idade das trevas, com muito mais perigo, porque alucinados por técnicas e tecnologia que subtraem a essência do homem à ganância e à avidez do ter como “sacrossanto” valor da identidade de cada pessoa.
Por dever de ofício converso com muitas pessoas, aliás a minha principal fonte de informação e de aprendizagem. E anoto que, de uma maneira geral, todas se queixam do estado a que o mundo chegou e lembram com saudade o tempo em que com um “aperto de mão” se confirmava um negócio ou qualquer outro acordo. Hoje vive-se um tempo de litigância, de desconfiança, de insegurança generalizada, de fortunas que se geram a partir de plataformas digitais sem que exista uma relação contratual estável com quem intervém na formação do valor, de uma inadequação inquietante, senão mesmo revoltante e obscena, entre as retribuições auferidas e o contributo para o bem-estar (bem supremo da economia enquanto ciência do bem estar), como são exemplos os milhões pagos aos desportistas de algumas modalidades, ou aos atores de Hollywood, tudo em perfeita harmonia com esse modelo americano que mudou e moldou o mundo, da Coca-Cola ao Macdonald’s, da desigualdade à violência, da amálgama da coletividade ao triunfo do individualismo.
A Europa está hoje “ajoelhada” perante as “invasões” maciças dos produtos em massa vindos da China e das marcas de referência concebidas pela nação americana. A “uberização” das relações laborais é o passo que se segue, num quadro em que a decadência do Estado social e das democracias ocidentais se encontram ameaçados de morte.
Eu, como muita gente, não me resigno e tenho muita dificuldade em lidar e em viver num mundo prenhe destas ameaças e, por isso, num acto de fé, mas também de convicção, quero continuar a acreditar que tudo isto não é uma fatalidade e pode ter retorno. Assim queiramos.

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3609