A opinião de ...

À CHAMINÉ COM MIGUEL TORGA

1. Há já uns aninhos, houve, como várias vezes tem acontecido, teatro no Auditório Paulo Quintela, do Centro Cultural de Bragança. O tema era Torga, brilhante escritor, tão acarinhado em S. Martinho de Anta, sua terra natal, e Sabrosa, a vila próxima. O Grémio Literário Vila-Realense, a Câmara de Sabrosa e inúmeras entidades, organismos e escritores têm vindo a desdobrar-se, em actividades de homenagem e estudo ao GRANDE caçador de PORTUGAL (de palavras eloquentes). Na campa rasa há sempre uma torga (urze).
 Conheci-o em 1972 na Clínica Rainha Santa Isabel em Coimbra, (se bem me lembro do nome), onde ele era otorrinolaringologista. Eu não passava de uma criança e fiquei imediatamente admirador por aquele HOMEM de bata branca. Hoje penso que a minha criatividade e sensibilidade “exageradas”, contribuíram para “viver no presente milhares de anos em frente”. Será o que virá a acontecer realmente? …
2. Para os amantes de teatro foi uma óptima oportunidade de descobrirem os prazeres deste tipo de manifestação artística e cultural. Lembro-me de que o espaço cénico estava bastante bem concebido, com decoração simples e alusiva ao mundo rural. Fomos como que penetrando na visão “telúrica” de Miguel Torga. Note-se que uma candeia de azeite sempre a arder conduziu os espectadores para um ambiente dos serões na província. O escano e a preguiceira também não faltaram.
3. Os actores amadores, alunos da Escola Secundaria Emídio Garcia, tiveram uma prestação agradável e muito realista. Conseguiram cativar a atenção dos espectadores que encheram praticamente a sala de 130 lugares. O certame teve o apoio, além do Centro Cultural Municipal, do ex-Instituto da Juventude, do Grupo Musical Sindicato, do Prof. Albino Falcão e da Rádio Brigantia.
4. Tendo por base textos de obras de Miguel Torga (serviram de inspiração, obviamente), os actores conseguiram recriar um ambiente inteiramente rural e por vezes a dar ao burlesco, convidando a assistência a conviver também no quotidiano duma pacata aldeia de província. O drama, a comédia e a tragédia foram sentidos. Os rabos-de-cavalo dos guardas (será que os rapazes, para tão nobre tarefa, não deviam ter cortado o cabelo?) quase serviram para amedrontar os contrabandistas da aldeia de Fronteira, onde se passava o mesmo que em todas as outras aldeias: namoros e raparigas solteiras grávidas, mortes, baptizados, as preces do senhor Cura, a “bruxaria” e o zelo e amor das mães pelos filhos. Os toques do sino, aquelas badaladas iam-nos introduzindo na acção.
5. Os actores estavam vestidos a rigor e é notável não haver ponto (cábulas) para os ajudar nas deixas. Pelo que foi dado ver, não se enganaram no texto nem andaram a inventar. Por isso e por tudo o resto, os actores foram premiados com calorosas palmas. À saída era patente no rosto das pessoas a alegria e o gozo proporcionado pelo espectáculo teatral.
6. Como tudo girou à volta de Torga, não posso terminar sem lembrar um pequeno texto do livro “Portugal”, sobre este nosso querido “Reino Maravilhoso”, que é Trás-os-Montes. Reza assim: “ (…) Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda em abismos de angústia…
-Entre!
A gente entra e já está no Reino Maravilhoso”.
7. Palavras sublimes a apoiarem uma representação teatral muito bem conseguida, tendo em conta as “inócuas” limitações de vária ordem, compreensíveis e perdoáveis.
8. Finalizo apelando a que as pessoas vão ao teatro. Ficariam com a alma cheia e o coração comovente!
P.S. – Não uso o novo acordo ortográfico.

Edição
3609