Editorial

António Gonçalves Rodrigues // Qui, 2017-01-26 09:23

Periferia? Qual periferia?

Texto

Em agosto de 2014, a propósito do 35.° Encontro pela Amizade entre os Povos, promovido pelo movimento Comunhão e Libertação, o Papa Francisco reforçou o seu apelo por uma Igreja presente nas “periferias” da sociedade atual”.
A carta divulgada pela Santa Sé, na altura (de acordo com a Agência Ecclesia) cita uma intervenção do então cardeal Bergolgio durante as congregações gerais antes do Conclave, em março de 2013: “A Igreja é chamada a sair de si mesma e ir para as periferias, não somente as geográficas, mas aquelas existenciais - do mistério do pecado, da dor da injustiça, da ignorância, da falta de fé, do pensamento, de todas as formas de miséria”.
Ora, e como já assinalou D. José Cordeiro, bispo de Bragança-Miranda, este território “é a periferia das periferias”.
A questão que eu me coloco várias vezes é porquê?
Olhando para um mapa, Bragança é a cidade portuguesa mais próxima do coração da Europa.
Como assinalava o presidente da Câmara de Vila Flor, Fernando Barros, recentemente, numa reflexão que tivemos sobre este assunto (perdoe-me a inconfidência), Portugal é praticamente caso único ao ter a capital instalada junto ao mar. Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Itália, e por aí adiante. Lisboa serviu, durante séculos, como porta de saída para o Império... de costas voltadas ao resto do país. E de costas voltadas ficou.
A questão é que os tempos mudam e as centralidades também.
Como já escrevi em tempos, muitas vezes Portugal faz lembrar um barco salva-vidas, em equilíbrio periclitante num mar revolto.
E se todos os ocupantes se deslocarem para um dos lados do barco, adorna, vira-se e, em última instância, vai ao fundo.
Há quem diga que ver as coisas muito ao perto as torna desfocadas. Mas vê-las muito ao longe também não ajuda a uma visão nítida do panorama. E, como os Xutos e Pontapés bem sabem, Lisboa não fica propriamente ao virar da esquina.
Haja quem ajude a capital a afinar um pouco a vista. É que com um comboio de alta velocidade aqui ao lado (verdadeiramente perto), é um crime de lesa-pátria não potenciar o investimento espanhol, com a melhoria de uma estrada. Que este não seja um daqueles casos em que do perto se faz longe. Tínhamos todos a ganhar com isso. Até Lisboa... E se olharmos bem para o tal mapa, a pergunta surge: afinal, quem é que está na periferia?