O fim do Euro??

A eurolândia a que os alvores dos idos anos 90 do século passado faziam referência como sendo o espaço onde se reuniam, ao fim de séculos de lutas sangrentas e juncadas de cadáveres, os povos mais cultos e mais desenvolvidos do mundo deixou de ser um modelo de referência e é hoje, muito provavelmente, o símbolo de uma agonia que resulta de um processo de autoenvenenamento compulsivo. 

A globalização sem regras, que provocou a mais ignominiosa desindustrialização e perda de empregos, retirou à Europa os motores do seu crescimento e da sua independência económica. Para aqueles que para além de acreditarem no mercado como deus supremo para a resolução de todos os problemas e conflitos ainda acreditavam na sua infalível bondade podem, como se costuma dizer, ”limpar as mãos à parede” pelo chorrilho de asneiras com que colocaram a Europa e o mundo à beira do abismo. Exibir que um trabalhador na China, no Paquistão ou na Índia ganha 5 dólares por dia, não tem férias nem subsídio de Natal, já para não falar dessas modernices que são o acesso à saúde e à educação, como sendo o exemplo de competitividade que tem permitido colocar produtos baratos e ganhar rios de dinheiro com a colocação de uma etiqueta e de uma embalagem de marca é, no plano económico, uma fraude. E foi essa fraude, comandada pelos EUA e seguida pela Europa que alimentou autênticas máfias financeiras que passaram a negociar tudo e mais alguma coisa através dos célebres mercados. 

A produção em massa, ajudada por preços baixos conduziu a uma espiral de consumo sem precedentes. E essa imagem era, pelos vistos, o arquétipo da felicidade terrena, com soberba expressão nas peregrinações itinerantes aos centros comerciais que inundaram o país e o mundo desenvolvido do maior ao mais pequeno aglomerado onde houvesse gente e cartões para pagar. E, no quadro de um processo que se sabia constituir uma despudorada armadilha, os Estados alimentavam a fúria consumista impulsionada pelos grandes grupos financeiros que, de forma consciente e propositada, instalaram o que veio a chamar-se a economia de casino. 

E o Euro? O euro fazia parte de um processo de integração europeia, discutido a partir de Maastricht e que consubstanciava três etapas: uma primeira que consistia na integração económica, traduzida na liberdade de movimentos de pessoas, capitais, bens e serviços, em suma, a abolição das fronteiras e que teve o seu início em 1992; uma segunda que seria a da integração monetária, ou seja, a da adoção de uma moeda única para todo o espaço de União Europeia, e que teve “ab initio” o fracasso de o Euro só ser adotado por 17 dos 27 países que integram a União; e uma terceira que seria a União política com a criação de um quadro institucional suportado numa lógica federalista. Com o falhanço da segunda etapa (integração monetária) associado a questões de paridade cambial que tornaram logo alguns países reféns do seu futuro (veja-se que Portugal, a Grécia e outros países nunca mais cresceram desde que aderiram ao euro), sabia-se que, a prazo, mesmo sem a crise financeira internacional, as coisas não podiam correr bem. 

E, hoje, atolados num pântano sem fim à vista, as razões para duvidar da sustentabilidade do euro são ainda maiores. Dito de outra forma: se houvesse vontade política em manter o euro, o avanço da eurolândia para a terceira fase já tinha acontecido. E isto porque nós sabemos que há diferenciais de produtividade entre a europa do sul e a europa do norte que só podem ser corrigidos com diferenças salariais no quadro de uma união estruturada e séria. Porque, nos EUA, um californiano não tem o mesmo rendimento de um americano do Delaware e, no entanto, têm a mesma moeda e as economias encontram-se integradas. Por isso, o continuarmos com euro, ou sem ele, depende exclusivamente da vontade política da Alemanha que, ao que parece, não é nenhuma e que, como já se viu, acabará por engolir o próprio veneno que criou.