A opinião de ...

Ser médico

No passado dia 16 de junho, realizou-se em Viana do Castelo a nona edição das “Jornadas nortenhas de diabetologia prática em medicina familiar”. A convite do Prof. Davide Carvalho, presidente da Conferência, participei na sessão de abertura, associando-me à homenagem a minha irmã, a médica Alda Soares, presidente de honra do congresso.
Ser médico – vocação e paixão foi o título escolhido para falar da minha irmã e lançar um olhar diacrónico sobre o que ser médico significa e implica. Um olhar de fora para dentro, tentando interpretar o olhar dos que procuram o médico, dos que o veneram e dos que o receiam. O olhar de quem procura e nem sempre encontra.
Na minha intervenção, comecei por recordar alguns episódios da infância e adolescência da minha irmã, salientando as qualidades humanistas que lhe proporcionaram um lugar peculiar de observação dos outros e do mundo e dela fizeram uma médica querida dos doentes e respeitada pelos seus pares. Um exemplo de médica por vocação e paixão.
Cresci e tenho vivido rodeada de médicos. Ainda hoje, muitos dos meus amigos mais antigos e próximos são médicos. Não por acaso, é que dá tanto jeito ter um médico à mão, ao alcance de um telefonema, à distância da amizade. Também tive o privilégio de conhecer e ser amiga de grandes médicos que foram também grandes escritores: Miguel Torga, Fernando Namora, João de Araújo Correia, António Lobo Antunes… Sempre me fascinou a intimidade entre a medicina e a literatura. Mistério insondável para um leigo, coisa natural para eles. A caneta que escreve e a que prescreve revezam-se harmonio­samente na mesma mão, explica Miguel Torga. 
 
Ser médico…Não cabe no espaço deste texto as reflexões e os exemplos que partilhei com os participantes das Jornadas. Deixarei apenas umas breves referências. Longe vão os tempos do João Semana, paradigma do clínico sempre disponível todos os dias e a todas as horas, criado por Júlio Dinis, pseudónimo do médico portuense Joaquim Guilherme Gomes Coelho. Hoje não se pede ao médico que ande por montes e vales a observar doentes. Espera-se, todavia, que seja médico por vocação. Só exercendo a profissão com paixão, o médico consegue abdicar de momentos importantes da sua vida familiar e pessoal. Faltar à festa de aniversário de familiar ou amigo, porque a cirurgia ou a consulta se prolongaram para além do previsto. Atrasar-se para a refeição em família e prescindir do sono retemperador porque a doença não tem horários e a urgência não tem hora marcada.
Mudaram-se os tempos, mudaram-se as condições de acesso à formação, os métodos de trabalho, os processos de recrutamento, mas não as qualidades inerentes a ser um bom médico. Ou percecionado como tal. Bom médico não é o que mais sabe, mas o que concilia conhecimento, intuição e humanidade. E, muito importante, que saiba comunicar e incutir confiança no paciente. A relação médico-doente é complexa, tantas vezes agravada por dificuldades comunicacionais. A linguagem muito técnica interfere e fere o já frágil equilíbrio do doente que sucumbe perante palavras que não conhece nem entende, e que soam como sentença de mal maior.  Saber comunicar com o doente. Dizer o que pode ser dito. Nem de mais nem de menos. Escolher o momento e perceber se o interlocutor está preparado para ouvir o que vai ser dito, é essencial na relação de confiança.
Entre as histórias que trouxe à colação para exemplificar o que era e é ser médico, escolho esta para partilhar com os leitores do Mensageiro.  Fernando Vale, socialista, republicano e maçon, encaixava no paradigma do João Semana.  Vivia em Coja e, contou-me ele que, uma vez, a meio da noite, foi chamado de urgência por um marido aflito. Sem hesitar, lá foi o médico a cavalo com o marido até à pouco acessível localidade de Piódão, concelho de Arganil. Deparou com a parturiente em dificuldades. Na ausência de luz elétrica dentro de casa e perante a insuficiente chama da candeia na mão do marido, optou por fazer o parto no exterior, iluminado por uma generosa lua cheia. E o final foi feliz. Foi essa a melhor recompensa para o abnegada médico. Que exercia a medicina não por dinheiro, mas por paixão.

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