A opinião de ...

A Ditadura da Palavra e do Pensamento

“Não digas tudo o que pensas, mas pensa tudo o que dizes”
António Aleixo.
 
Da entrevista concedida ao Jornal i, no pretérito dia 18 de Julho, pelo candidato à autarquia de Loures pelo PSD/CDS – PP/PPM, André Ventura, na qual foram alegadamente feitas declarações “racistas” e “xenófobas” em relação à comunidade cigana, acusada de “viver quase exclusivamente de subsídios do Estado” e de estarem “ acima das regras do Estado de Direito”, a candidatura do Bloco de Esquerda à Câmara lourense apresentou uma queixa - crime contra o seu autor.
Não tendo lido o livro nem visto o filme, a abordagem a este tema, fracturante, como agora se diz, só pode ser feita na defensiva, porquanto a estratégia mais cautelosa e sensata para se evitarem problemas que dela possam decorrer.
Consta dos dados biográficos deste nosso concidadão a informação de que é advogado e professor universitário. De estranhar, pois, estando respaldado pelo pressuposto/requisito da formação académica, que não tenha tido a inteligência social (eufemismo para hipocrisia) para o impedir de proferir as “chocantes” e “obscenas” declarações de que é signatário. A menos que – uma leitura possível - o candidato em questão se tenha arrependido de o ser, e, de forma ardilosa, provocado o “suicídio político”, com carta endereçada aos “familiares”.
A considerar apenas a primeira hipótese, o comportamento imprudência do seu agente, ele haveria de merecer, estou certo, no imaginável contexto da famigerada “sande de relâmpago” e do copo de vinho, o seguinte reparo do nosso querido, saudoso e inimitável Augusto “Berbo”: “André, nem pareces um rapaz com estudos!”.
Da minha parte, e no conforto calculado de quem se mantém à distância “senatorial” em relação ao caso, fica também aqui o meu parecer sobre a atitude do acusador.
Porque uma das grandes conquistas do 25 de Abril foi, inquestionavelmente, a liberdade de pensamento e de expressão, vejo com maus olhos, pelo contra - senso, que um cidadão deste país – à excepção, naturalmente, de situações de difamação e injúria, que manchem o bom – nome do visado – possa ser acusado criminalmente por ter emitido a sua opinião. Correcta ou não, a sociedade é que o devia julgar!
Vamos pôr a hipótese de todos os “representantes” dos grupos sociais que são socialmente estigmatizados (funcionários públicos em geral, polícias, agentes tributários, árbitros de futebol, etc.,) se melindrarem com os “mimos” que constantemente lhes são dirigidos: não faltaria certamente matéria criminal para julgar neste país!
Enfim, isto mais parece a perfeita e fiel reprodução de um episódio de sala de aula da primária do tempo da Outra Senhora: o aluno betinho, sentado na carteira da frente, no papel de bajulador, a fazer queixinhas à senhora professora da natural e salutar irreverência do colega Zequinha, mau aluno por convicção.

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