A opinião de ...

Reforma X

À luz do tema «a missão no coração da fé cristã» assinalámos no passado Domingo, 22 de outubro, o dia mundial das missões. O papa Francisco, na sua mensagem pela ocasião deste dia, recorda que «a missão da Igreja não é a propagação duma ideologia religiosa, nem mesmo a proposta duma ética sublime». Efetivamente, quando ao longo da história se confunde Evangelho com ideologia ou se reduz o cristianismo a uma ética, o apostolado desaparece ou desfigura-se. Terá de ser novamente uma fé sincera a resgatá-lo. O apostolado autêntico não destrói, antes revitaliza culturas e sociedades. Foi esse, igualmente, o objetivo das missões na idade moderna. Tanto hoje como ontem, é a fé vivida numa procura séria que resgata o apostolado das tentações ideológicas e das tendências moralizantes.
Falar de missões e de apostolado significa, no contexto da Reforma do séc. XVI, abordar um elemento indispensável. O século em questão exige tanto um apostolado capaz de missionar novamente o chão europeu como um apostolado capaz de missionar o chão do novo mundo descoberto. Ora, foram os verdadeiros discípulos de Cristo ao tempo os capacitados, como sempre, para esta tarefa missionária ad intra e ad extra. Foram eles responsáveis pelo surgimento dos clérigos regulares, uma das forças então adequadas para o renovamento da Igreja. Alguns exemplos desta nova expressão de vida consagrada foram os teatinos fundados por S. Caetano de Thiene, os barnabitas por S. António Maria Zacarias, os jesuítas por S. Inácio de Loyola e os somascos por S. Jerónimo Emiliano. O objetivo fundamental destes institutos era o apostolado, que eles desdobraram em três direções: o cuidado pastoral por meio das pregações, da direção espiritual e das missões; a formação da juventude e dos futuros sacerdotes por meio da fundação de colégios e de seminários; e a assistência aos doentes e aos mais pobres. Com a sua ação mostraram saber perfeitamente o que o papa Francisco recorda na mensagem referida, ou seja, que «a missão adverte a Igreja de que não é fim em si mesma, mas instrumento e mediação do Reino».
De todas as congregações citadas, uma desenvolveu o seu apostolado na nossa diocese, os jesuítas, que desembarcaram em Portugal em 1540 e que inauguraram o colégio do Santo Nome de Jesus na nossa cidade de Bragança em 1561. Para se dedicarem ao bem espiritual da cidade, ao estudo do terreno e aos preparativos para a fundação do futuro colégio, foram enviados o Pe. Leonel de Lima, o Pe. Domingos Cardoso e o Ir. Garcia Simões. O Pe. Francisco Rodrigues, citado por Mons. José de Castro, dá conta da afeição que lhes tinha a cidade, e escreve assim, quando depois de uma breve interrupção vieram para se fixar definitivamente: «voltaram para Bragança, no fim de 1561, os três religiosos que tanto haviam edificado aquelas terras com o ardor do seu zelo no ano anterior, e foram recebidos com repiques de sinos e grande festa e alvoroço na cidade». Com o som festivo dos sinos saudou assim a nossa região um dos frutos da Reforma católica que tentava fazer caminho na Europa de então.

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