A opinião de ...

PRIMEIRO AS VÍTIMAS

O desastre que marcará este ano de 2017 na história portuguesa em páginas de luto, verifica-se, para aprofundar a gravidade, no ano em que se tornou frequente indagar se a União Europeia perderá viabilidade, uma questão que, para a tornar menos inquietante no que respeita às sociedades civis, pode ser atribuída a pessimismos de respeitados analistas, como Montbrial. Em todo o caso, para que o tema não se torne mais perturbador de racionalidade, talvez não seja inoportuno lembrar alguns factos desafiantes: primeiro a presença na memória da herança vinda dos anos 2014-2015, dominada pela crise do euro e depois pelo Brexit do Reino Unido, este a lonjuras de uma solução assumida sem reservas; depois a evidência de que as urgências financeiras são secundarizadas pelo crescimento dos chamados partidos populistas, com uma animação, que exige a necessária prudência, não apenas na França de Marine Le Pen, também na Hungria e na Polónia com o recurso ao referendo que entenderam necessário pela questão dos refugiados, embora sem impactos equivalentes a casos como o da Escócia, e agora da Catalunha, que exige cuidadosa atenção aos interesses portugueses, tudo num quadro que, com causa ou sem ela, coincide com a manifestação de vontade do Presidente da Comissão Europeia sobre a eventual reforma da União. Com um tema de fundo, discretamente aflorado, sobre a não articulação das vistas da França e da Alemanha, que lembra o cético e desesperado Stefan Sweig ao despedir-se da Europa e da vida, visão talvez inspiradora de Montbrial quando clama “Pour une gouvernance raisonnable, mais réelle” para a União. A conclusão que parece a mais construtiva abrangendo o caso do desastre que mergulhou a sociedade portuguesa numa tragédia que dificilmente encontra precedentes, mas que parece tender para ser ainda dominada pela inquietação de uma pergunta pessimista, que necessita de tempos a tempos, e que tem com resposta cética vulgar que “Plus ça change et plus c’est la même chose”. Todavia aquilo que mais cresce no ambiente da tragédia que vivemos, havendo decisão e capacidade política a servir de apoio forte e indispensável a todas as decisões, não é a questão da forma da governança, que, como vimos, é inquietante na circunstância da União, mas secundária no angustiante desastre que atingiu o povo português, que o que primeiro exige é sentido de responsabilidade. Exige um ambiente em que não se trocam em primeiro lugar avaliações de culpas, que seguramente terão de ser inquiridas, mas sem que se atenue a falta de um ordenamento da governança, demonstrada e sofrida de falta de articulação, que deixa de facto de ter prioridade. Designadamente porque a prioridade são as vítimas, por isso a exigir o fortalecimento de uma decisão de agir para um novo futuro que os infortúnios não podem diminuir, o que foi claramente reconhecido, assumido, e fortalecido, pelo Presidente da República, com ânimo, consciência cívica e ética, que dá novo sentido à função presidencial: está presente, responsável, e com autoridade. Que se espera que encaminhe para a referida reorganização da governança, isto é, uma administração articulada, à qual não faltaram apoios, na resposta, os sacrifícios heroicos, como os dos bombeiros, nem o civismo de privados, que o sentimento de solidariedade e o humanismo levaram a assumir riscos, e solidariedade com as vítimas, umas mortas, outras que viram morrer o passado, e sobreviventes mas sem esperança de futuro, mas aos quais anima a presença de quem pratica que o afeto é um fator indispensável da solidária realidade nacional. Mas tudo pondo em evidência que a governança necessita de racionalização do sistema de intervenção, cujas articulações de competências, meios e responsabilidades por objetivos parecem uma exigência prioritária ao debate, embora indispensável, das culpas. A chamada dos Reitores das Universidades à formação da Comissão Técnica, esperamos que seja um contributo para que a “estratégia do saber”, que implica com a racionalização da administração, seja prova dos interesses comuns de um só Parlamento cuja necessidade assenta no interesse geral e comum da população que lhes legitima as diferenças.

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