E se não houvesse barragens?...

1 - Com a seca que estamos a viver, lembrei-me dos meus tempos de infância, na aldeia, em que não havia água canalizada, e as famílias se abasteciam com uns cântaros carregados à cabeça ou nas cangalhas das bestas. Com uma carga de 4 cântaros enchia-se uma talha, que funcionava como depósito familiar para as necessidades domésticas, sobretudo na cozinha. Só depois do 25 de Abril é que a revolução dos cravos nos trouxe a barragem e o conforto da água canalizada.
No entanto, lembrei-me também do Verão de 1989 – 15 anos após o 25 de Abril - em que a cidade de Bragança, durante os meses de mais calor, só era abastecida durante 5 horas por dia, mais propriamente entre a uma da madrugada e as 6 da manhã. E lembrei-me, ainda, que, já em pleno século XXI mas ainda sem Veiguinhas, a cidade de Bragança chegou a ser abastecida por autotanques a partir da barragem do Azibo.

2 - Por todas estas perturbadoras lembranças, não posso deixar de me perguntar: e se não houvesse barragens, o que seria de nós, gentes do distrito de Bragança? O que seria do concelho de Moncorvo, sem as barragens construídas após o 25 de Abril? O que seria dos concelhos de Macedo de Cavaleiros e de Mirandela, sem a barragem do Azibo? O que seria de Bragança sem as barragens da Serra Serrada e de Veiguinhas, que tantos protestos motivaram aos ditos «ambientalistas» por causa das espécies autóctones da flora e da fauna de Montesinho? O que seria de Vila Flor, de Carrazeda de Ansiães, de Alfândega da Fé, de Mogadouro e, ao fim e ao cabo, de todos os concelhos do distrito, sem as barragens entretanto construídas?

Não seriam apenas o conforto das nossas gentes e a produção agrícola que estariam cada vez mais ameaçados neste interior tão esquecido do Poder Central. Seria todo o Nordeste Transmontano que, a médio e longo prazo, estaria abandonado e, provavelmente, desertificado, agora que outros ambientalistas começam a dizer que o clima de Portugal se aproxima do clima da Tunísia e de Marrocos.

3 - Por isso, não posso deixar de me perguntar: onde param os ambientalistas que acamparam junto do rio Sabor, no verão anterior ao início da barragem do Baixo Sabor, em protesto contra esta construção? Onde param os ambientalistas que protestaram junto de Bruxelas por causa da barragem de Veiguinhas?
E quando me lembro que estes ambientalistas eram e são os mesmos que se têm oposto à construção de estradas novas - como a que possa ligar o concelho de Vimioso à A4 - por causa dos ratos da Cochinchina ou do quer que seja, fico a pensar que devem estar ocupados a lutar por um futuro de sonho para os ratos que precisam do espaço e da beleza dos nossos campos para se sentirem espécies protegidas … e privilegiadas, quando comparadas com os ratos do litoral que só dispõem dos esgotos para sobreviverem…