A opinião de ...

Reforma XI

Todos os anos, a Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios promove no mês de novembro uma semana de oração e reflexão dedicada aos Seminários. Disponibiliza para essa semana oportunos subsídios que promovem a pergunta vocacional, que é verdadeiramente essencial na relação com Deus e no encontro da identidade de cada batizado. É precisamente para ajudar ao discernimento e ao amadurecimento da vocação ao sacerdócio que existem os seminários, uma estrutura que, grosso modo como hoje a conhecemos, é herança do Concílio de Trento e, portanto, do período da reforma.
Foi a 4 de dezembro de 1563 que se encerraram os trabalhos do Concílio de Trento, mas já pelo decreto Cum adolescentium aetas de 15 de julho, o Concílio criava os seminários diocesanos. Ao esforço de esclarecimento dogmático, motivado pelas controvérsias com o protestantismo, acresceu o esforço de disciplinamento, adiado em demasia. Neste âmbito de reforma, caracterizada pela preocupação pastoral (é a cura animarum que ilumina os trabalhos conciliares), entra a corajosa novidade dos seminários. Estes foram chamados, como ainda o são, a desenvolver um fundamental serviço à Igreja e ao mundo, formando muito para além do âmbito intelectual bons pastores para o Povo de Deus, ou seja, contribuindo para a maturidade de uma vocação. Muito para além do âmbito intelectual, mas sem descurar esta dimensão da formação. Na verdade, a incerteza teológica marca todo o período gestacional da reforma protestante e católica. E, ainda que houvesse nas escolas catedrais ou outras, formação dos futuros sacerdotes, essa ficava muito aquém do desejável. Para além disso, o Concílio vai olhar com muita seriedade para a formação dos leigos, promovendo as pregações dominicais e o ensino do catecismo. É, por tudo, muito compreensível porque muito exigida pelo contexto, a preocupação com a formação do clero por meio da obra dos colégios e dos seminários.
Na nossa Diocese, a terceira da província eclesiástica de Braga a corresponder ao apelo conciliar (primeiro contam-se Braga e Viseu), o seminário foi fundado em Miranda no ano de 1600, sendo bispo D. Diogo de Sousa. Um dos problemas à concretização destas instituições, obstáculo já adivinhado nas discussões conciliares e transversal à sua história, dizia respeito ao financiamento da construção e à manutenção. No começo da edificação do seminário em Miranda constata-se precisamente este limite. Um limite sério mas ultrapassável como o foram tantos outros que sobre esta realidade eclesial sobrevieram, desde o Liberalismo à I República. Não se diz com isto que é uma instituição eterna, mas sim um tempo e um espaço muito necessários.

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