A opinião de ...

Novo Ano, velhos desafios?

A cada Novo Ano, novos sonhos e novos desejos se aportam ao coração de cada um de nós. E este ano somos todos chamados a viver o dom e a vocação baptismal. Todavia, os velhos hábitos da pouca determinação e do quase inexistente sentido eclesial, faz com que, uma vez mais, os desafios do tempo presente sejam os ‘velhos desafios’ do tempo novo. 
Temos vindo a notar nas nossas Unidades Pastorais (e, provavelmente, em toda a Igreja Local) uma ausência crescente de carácter e de identidade na maioria dos baptizados. Há uma evidente falta do sentido sacramental e de uma gritante inoperância dos baptizados. Quase não se sente, não se vive e não se testemunha o dom da fé recebido no Baptismo.
Perante esta conjuntura, temos que promover o sentido de “discípulo missionário” dos baptizandos e baptizados, estimulando o fiel crente para a consciência do dom e vocação recebidos, germinando no coração do fiel crente a consciencialização de que fomos assinalados pelo Espírito Santo, que o Dom transforma o nosso carácter, a nossa personalidade, a nossa mundividência, a nossa existência espiritual, ôntica, existencial e circunstancial. A verdade é que só no assumir autêntico do dom e da vocação é que o fiel crente poderá dar razões da sua fé, testemunhando, concomitantemente, o paradoxo da contagiante beleza da santidade.
Com efeito, urge, mais do que nunca, implementar dinâmicas e linhas reformadoras (novas formas, entenda-se) que reeduquem, redefinam, reanunciem, reevangelizem. Para tal, há que estimular no fiel crente a re-descoberta da assunção do Dom de Deus, deste Tu Divino que transforma o meu mesquinho eu num nós comunitário e caminhante; num nós gerador de comunidade eclesial, de sentido de pertença à Igreja Local, da vivência alegre do amor de Deus e da certeza que somos infinitamente amados, fazendo com que, pelos trilhos da santidade, caminhemos a passos largos para a real e efectiva militância, capaz, assim, de anunciar a alegria de ser cristão-católico. 
Em jeito de conclusão, desafio o leitor a permanecer na alegria e no amor de Deus, e que tão bela e eloquentemente expressou o grande poeta Eugénio de Andrade no seu poema intitulado “Eternidade”: 
 
 
«É urgente o amor 
É urgente um barco no mar.
 
É urgente destruir certas palavras, 
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, muitas espadas. 
 
É urgente inventar alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras. 
 
Cai o silêncio nos ombros e a luz 
impura, até doer. 
É urgente o amor, é urgente 
permanece

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3661