A opinião de ...

Gratidão versus Ingratidão

O ser humano tem tanto simples como de complexo. Também decorrente das redes sociais, a convivência entre os seres humanos se torna complexa e multifacetada, acabando, assim, por ser mais difícil discernir verdadeiros sentimentos e gerir atitudes. Nesta perspetiva, é determinante valorizar a sensibilidade positiva, a formação e o carácter. Nada definirá melhor o sentimento relacional do ser humano, do que o valor da gratidão.
Por definição, gratidão é o sentimento de reconhecimento, que gerimos e exercemos dentro de nós, valorizando a atitude altruísta de quem é feliz quando vê a alegria no sucesso do outro, para o que possa ter contribuído. Neste contexto, não devermos esquecer os exemplos fornecidos por Jesus Cristo. Vejamos o episódio da cura de dez leprosos, em que apenas um volta para agradecer [Lucas 17:15-16]1. É este homem que Jesus destaca, pois é o único que soube ser grato. Estando habituado à ingratidão dos homens, Jesus não deixa de assinalar o seu descontentamento, para com, os 9 leprosos, ingratos. Efetivamente, Jesus restitui-os a todos à vida, pedindo-lhes para cumprirem as prescrições da Lei, para se irem mostrar ao sacerdote. Contudo, só um soube discernir o mais importante e dar o justo valor à gratidão. Colocou a gratidão antes do cumprimento escrupuloso da Lei e foi elogiado por Jesus. Porém, Jesus, não isenta dos procedimentos rituais, mas enaltece a nobreza dos que sabem ser gratos.
Posto isto, vemos que à gratidão estão subjacentes sentimentos nobres, de afectos e até de abnegação, incondicionais, em relação ao “Outro”, que consideramos, ajudamos, e, naturalmente, confiamos. Aliás, entendo que a gratidão é, também, uma expressão de confiança e de consideração superior.
Porém, cada vez mais, surgem incompreensíveis posturas de arrogância e vaidade, num fanático apagar do passado que sustentou e sustenta o presente. Estamos, pois, a atravessar uma época com valores subvertidos pela ganância e desamor, onde a ingratidão, impregnada de oportunismo, tem vindo a ganhar força. Só as pessoas, com carácter bem formado, são capazes de viver o sentimento tão nobre da gratidão.
Pela composição da palavra ingratidão, vemos que é diametralmente oposta  à gratidão e ao sentimento que a define. É uma faceta  muito negra do ser humano, que está doente, padece de infelicidade, traduzida na inveja de tudo e de todos, não reconhecendo quem lhe fez e faz bem. O ingrato acumula preocupações, ansiedades, ambições de poder e protagonismos que mantém bem camuflados e lhe provocam o caos na sua saúde mental. Chega a ter comportamentos subservientes para obter o que pretende. É manipulador e insensível, porque se considera "o centro do mundo".
Por vezes, até tem sucesso. Só que esse sucesso, desprovido de valores éticos, deontológicos e humanos, poderá ser efémero. Isto, porque, para obter o que ambiciona, não hesita em maltratar, ou derrubar quem lhe fez bem. Esquece que a finitude da vida é inexorável, não só para os outros, mas para ele, também. Como dizia, Goethe, “A ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais conheci homem de valor que fosse ingrato”.
E, não há dúvida que esta frase é bem explícita sobre a negação de uma “luz” que nos deve iluminar a vida e os valores do ser, estar, fazer, partilhar e conviver. Por isso, é importante que entendamos que “Não há no mundo exagero mais belo do que a gratidão” (Jean de La Bruyère), sendo certo que devemos, em primeiro lugar, ser gratos pela vida.

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