A opinião de ...

Viver hoje o meu batismo

O tempo da Quaresma era, na Igreja Primitiva, o tempo privilegiado para quem recebia instrução religiosa – os catecúmenos – fazerem a sua preparação próxima em ordem ao batismo que iriam receber na Vigília Pascal. Isto, note-se, passava-se num contexto em que o batismo era recebido na idade adulta, depois de os indivíduos terem percorrido um longo caminho espiritual e um percurso de aproximação à comunidade dos crentes. Era na Quaresma, então, que se faziam os últimos escrutínios, que se entregava o Credo e o Pai-nosso. O Ritual de Iniciação Cristã de Adultos mantém, ainda hoje, a mesma metodologia.
Naquela altura batizava-se sobretudo adultos, porque ser cristão implicava estar sujeito à perseguição e punha em risco a própria vida. Só partir do século IV – quando no Império Romano passou a ser permitido abraçar a fé cristã sem o receio da perseguição – é que se passou a admitir crianças ao batismo. Depois, e até há bem pouco tempo entre nós, todas as pessoas eram batizadas o mais rapidamente possível.
Na verdade, quem faz um percurso sério para aderir à fé cristã, recordará como significativa para a sua vida a data do seu batismo. Já quando o batismo é recebido em tenra idade, há o risco de não se valorizar essa data e até de esquecê-la. Por isso, neste ano pastoral dedicado ao Batismo, é de louvar a iniciativa diocesana de todos os católicos de Bragança-Miranda procurarem saber o dia do seu batismo e celebrá-lo.
Na mensagem de Quaresma-Páscoa, o bispo D. José Cordeiro recorda aos seus diocesanos que estes tempos litúrgicos que se vivem constituem “uma ocasião feliz para cada um de nós fazer uma peregrinação à fonte batismal onde foi batizado”.
Todas as caminhadas, desde a mais curta à mais longa, iniciam-se com um primeiro passo. Mas, ficando-se por esse passo, também não chegam longe. Estas iniciativas diocesanas, são o primeiro passo em ordem a uma consciência mais profunda da condição de batizado. Contudo, se forem o único, será muito pouco – e não é só isso que D. José Cordeiro deseja para os seus diocesanos. Seguramente, ele espera que, depois deste primeiro passo, se desenvolva uma longa caminhada. Que os cristãos, ao menos, saibam o dia do seu batismo – e que a peregrinação ao local onde foram batizados, mais do que um ponto de chegada, constitua um ponto de partida.
Já que a opção de ser cristão não foi tomada por eles, mas pelos seus pais (e, às vezes, pela pressão dos avós), que assumam agora um processo de crescimento interior que os leve a descobrir a importância da sua fé e a necessidade de a celebrar com outros. Para isso será preciso, sobretudo, disponibilidade interior para fazer esse percurso. Não chegará certamente este tempo da Quaresma. Mas o que dele ainda falta poderá significar, pelo menos, o propósito de se comprometer em encontrar caminhos para crescer e desenvolver a sua fé, a adesão a Cristo e ao seu projeto.
Como na maior parte das vezes a iniciação na fé se ficou pela instrução elementar para a primeira comunhão, muita há para fazer neste capítulo. Como ficaria feliz o bispo desta diocese se chegasse ao paço episcopal a vontade de muitos cristãos para entrar num verdadeiro processo catecumenal, para aprofundar e desenvolver a sua fé

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