A opinião de ...

Despertar para o perdão!...

A vida é feita de inúmeras multiplicidades, etapas, tempos, contratempos, momentos e sentimentos. De boas e más experiências. Umas que nos marcam mais que outras, de acordo com os nossos valores, vivências pessoais e sociais. E como não podemos viver isoladamente, a vida e o modo como dela usufruímos depende, também, em boa medida, da forma como nos relacionamos com os outros e gerimos, na reciprocidade comportamental, as emoções e os afetos.
A azáfama quotidiana, a competição desenfreada aliada à materialidade que sustenta uma boa parte dos valores atuais, leva-nos a relegar para planos secundários o que deve sustentar a essência do nosso viver. Neste contexto acreditamos não ter tempo para parar, pensar e refletir, exercitando a instrospeção. E parar, de vez em quando, é fundamental até para nos conhecermos e reconhecermos, tendo sempre em conta os ambientes em que nos movimentamos e exercitamos a relação com os outros. Parar é uma espécie de retiro avaliador do estado do nosso amor, que deve reabastecer o nosso ser, reabilitando-nos com pensamentos, propósitos e energias positivas, para continuar. Uma paragem é essencial para melhor nos orientarmos e prepararmos os desafios da continuidade da nossa viagem.
Ora, nesta perspetiva, a quaresma é um período propício, não só para exercitarmos os nossos momentos reflexivos, no sentido de avaliarmos comportamentos e arejarmos, com reforços construtivos, os nossos pensamentos. É momento de confissão, de perdão, de mudança, de renovação, avaliando o juízo da nossa emoção. De nos libertarmos de sentimentos dolorosos, destrutivos, de rancores e vinganças, de atiçar sentimentos negativos que consomem e nos consomem o corpo e a alma, olhando o perdão, revitalizador da alma e do coração, como uma das armas mais poderosas da interação e comunicação.
Temos a noção do quanto é difícil perdoar, pedir perdão ou simplesmente desculpa. O ser humano é mesmo assim, sobretudo quando não abdica do seu orgulho doentio, se torna demasiado egoísta e convencido da “sua” razão. Mesmo sem plausível explicação. Mas não é menos verdade que quando pedimos desculpa, perdoamos, como um ato de amor e respeito pelo “outro”, ficamos aliviados. Diria mesmo, gratificados, engrandecidos, libertando-nos de um determinado passado infestado, que acabava por ser tornar “tóxico” e desumanizado. É que o perdão é mais importante para quem perdoa, compreende, do que para quem magoa. E sendo o perdão um ato de coragem e aceitação, ao exercê-lo recuperamos a capacidade de confiar e amar, potenciando o renascimento do positivo, do puro e do belo. Saber perdoar torna-se um gesto bonito, fraterno, no caminhar viajante do nosso humanismo, fortalecendo a nossa Fé.
Quando procuramos aceitar o “outro”, num contexto promotor da educação para os valores, entre os quais o perdão, renunciando à energia negativa e ao trabalho de pensar mal, de remoer por dentro pensamentos de vingança, potenciamos o viver em paz, com mais tranquilidade, harmonia e alegria. Se perdoar é fundamental para a preservação da nossa saúde mental, despertemos para o perdão.

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