A opinião de ...

OS CINCO ANOS DO PAPA FRANCISCO

 
Não é necessário evidenciar a importância da intervenção, com dimensão mundial, do Papa Francisco, que foram buscar ao fim do mundo, a expressão que se tornou popularizada pela invocação do que pareceu aos cardeais e ao Espírito Santo. O que parece mais significativo nesta agora celebrada eleição, é que tende para ser mais discutido se também ele, poderá seguir o corajoso exemplo de renúncia do Papa Emérito Bento XVI, lembrando que ele próprio mais de uma vez se referiu à possibilidade de repetir aquela ato que Anselmo Borges, tão eminente teólogo, professor da Universidade de Coimbra, escreveu que será sempre lembrado, porque “é um gesto de humildade, de significado histórico”. O que parece novo é que também circule a mesma afirmação no sentido de alguma corrente desejar que o facto se verifique, porque não apoia a essência da atitude interventora que este sucessor de Pedro assumiu, com simplicidade franciscana, não necessariamente por estar à frente do nosso tempo, mas seguramente porque não ignorou a mudança inquietante e acelerada, e em grande parte anárquica, do encontro globalizado de todas as culturas, crenças, e etnias, numa época que viu o “credo do mercado” ultrapassar a importância do “credo dos valores”, e o entusiasmo com que as esperanças postas da “inteligência artificial” apontam para uma dominante ciência sem consciência. Não podem excluir-se as circunstâncias que aconselham a reler os fundamentos da revolta de Lutero, que ele não ignorou, assim como advertiu que não será forçado a seguir o exemplo do Papa Emérito senão por iguais motivos, isto é, pelo reconhecimento de que as suas capacidades físicas sejam ultrapassadas pelas exigências da missão. E quanto a esta, não pode ignorar-se que o Papa, como qualquer ser humano, não é independente da relação com a circunstância do seu período de vida, isto é, da relação do homem com a sua circunstância, como ensinou Ortega. Assim como João Paulo II, hoje elevado aos altares católicos, não pôde deixar de ser enfrentado, por ter nascido na Polónia, a Nação pior estacionada da Europa, pelo desafio do sovietismo invasor da mesma Europa. Mas a circunstância do Papa Francisco foi a de uma América do Sul, inteiramente irreconhecível nas previsões do Abade Correia da Serra, com governos mais praticantes do pessimismo de Maquiavel do que das virtudes imaginadas pelo seu amigo e legislador Jefferson, para o norte desse continente, tudo substituído pela imprevisibilidade. Disse um dia Churchill que a última guerra mundial tenha sido a primeira em que a palavra também tinha sido um instrumento de guerra. O Papa Francisco assumiu que a palavra, quando é a “palavra encantatória” do privilegiado por esse talento, é um instrumento de paz que consegue, pelo seu poder, vencer a palavra do poder, sobretudo quando este está esquecido da autenticidade que a ética lhe exige. Se a misericórdia é a sua premissa mais invocada, não deixou de proclamar que a corrupção “é a pior chaga social”, e com isto não se refere apenas à relação dinheiro-poder, mas à ética das instituições, incluindo, sempre que ele o considera necessário, a Igreja que o foi chamar ao fim do mundo. Foi uma honra para Portugal, envolvido pelo chamado, com a humildade que carateriza o que se “senta no último lugar da mesa, e espera que o chamem” que o Padre José Tolentino Mendonça tinha sido chamado para orientar o retiro da Quaresma do Papa, do que deu notícia respeitosa em sessão realizada na Universidade Católica. A conclusão que julgamos mais relevante é, para além dos tempos, querer que a palavra encantatória que lhe pertence assuma as ameaças e desastres do tempo que lhe aconteceu viver, tendo a misericórdia como “eixo da roda” da missão para a qual o foram chamar ao fim do mundo.

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