A opinião de ...

Bragança “gay friendly”

Há rótulos que se colam às pessoas e às cidades e que perduram mesmo quando a realidade os desmente. Bragança continua a ser considerada uma cidade remota e longínqua, apesar de estar cada vez mais perto de tudo, graças à melhoria das acessibilidades nos últimos anos. Tem até, no contexto da Península Ibérica, uma posição única: como afirmou o primeiro-ministro, António Costa, Bragança “tem à sua volta, num raio de 150 a 200 quilómetros, cinco milhões de habitantes do lado de lá da fronteira”, o que “dá uma centralidade absolutamente extraordinária a esta região”.
Apesar disto, Bragança continua a ser considerada uma cidade fechada e pouca aberta à diversidade, mesmo sendo uma das cidades onde convivem mais culturas e credos diferentes em Portugal. Cerca de um décimo dos seus habitantes são estrangeiros, oriundos dos cinco continentes! Só estudantes no Instituto Politécnico são dois mil, os quais se sentem em Bragança acolhidos e respeitados, seja qual for a sua cor de pele, a sua cultura ou a sua religião.
Vem isto a propósito do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero) ir organizar em Bragança o que anuncia como “a primeira marcha do orgulho LGBTIQ” deste distrito transmontano. Esta iniciativa é apresentada pelos organizadores como sendo uma lança em África, ou seja: também eles assumem Bragança como uma “cidade conservadora” e que ainda “não está aberta a este tipo de movimentos”.
Certamente haverá quem experimente alguma resistência em aceitar pessoas com uma orientação sexual diferente da heterossexual, mas essa não deverá ser a atitude da maioria. Os católicos, por exemplo, e são muitos em Bragança, têm aprendido com o Papa Francisco a desenvolver uma atitude de tolerância e de aceitação dessa diversidade.
Logo no dealbar do seu pontificado, no regresso do Brasil, a sua primeira viagem fora de Itália, Francisco afirmou a bordo do avião: “Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para a julgar? O Catecismo da Igreja Católica explica isso muito bem, dizendo: ‘Não se devem marginalizar estas pessoas por isso, devem ser integradas na sociedade’”.
Se Bragança soube abrir-se à interculturalidade e acolher pessoas de diferentes credos, não há razão para rejeitar a diversidade de orientações sexuais e desenvolver agora atitudes de rejeição daqueles que publicamente querem assumir essas suas opções manifestando-se na rua. Pelo contrário, esta é até mais uma oportunidade para demonstrar que não é a cidade provinciana e tacanha que se supõe, mas antes uma realidade cosmopolita, tolerante e aberta a toda a diversidade que nela queira conviver.
Em vez de ter medo que se lhe cole o rótulo de “gay friendly”, ou “LGBTIQ friendly”, Bragança deveria estar atenta aos benefícios de ser considerada uma cidade acolhedora em todas as dimensões, incluindo todos os que vivem a sua sexualidade com as mais diversas orientações, desde que respeitadores da sensibilidade dos outros. Uma cidade de sadia e harmoniosa convivência entre todos os que pensam e vivem de forma diferente uns dos outros. Sem preconceitos, crispações ou menosprezo.
Bragança precisa de todos. Precisa de crescer e de ser cada vez mais uma cidade aberta ao mundo.
(Publicado no JN)

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