A opinião de ...

SKRIPAL (Para lá da tentativa de assassínio)

Na minha crónica anterior dissertei sobre as mutações dos agentes patogénicos associadas ao mau uso dos antibióticos que promovem o aparecimento de organismos superresistentes e que ameaçam o tratamento adequado e combate às doenças por eles desencadeadas.
 
É bom levar em devida conta que as alterações genéticas dos agentes agressores são fruto do acaso. Resultam de erros fortuitos de reprodução que os darwianos mecanismos de evolução e de sobrevivência dos mais fortes e adaptados, refinam e apuram para mal de quem necessitar de os combater. Felizmente a luta contra os organismos infeciosos há muito que deixou de ser igualmente aleatória e hoje é conduzida por um exército de investigadores que se socorrem de conhecimento científico acumulado que todos os dias é acrescentado de forma sistemática e rigorosa.
Enfrentaremos, nos anos que se aproximam, doenças e maleitas mais complexas e de efeitos ainda totalmente desconhecidos. Há, contudo, a justa e fundada expetativa que o conhecimento crescente e a tecnologia dele resultante estará à altura para lhes dar a adequada réplica. É verdade que apesar de aleatória, a adaptação dos agentes patogénicos aos antibióticos é muito rápida e eficiente, mas também é verdade que, fruto da sistematização e acumulação do conhecimento biológico, a resposta é cada vez mais rápida e eficaz. A investigadora Karina Xavier descobriu recentemente qual o mecanismo que as bactérias usam para comunicar e que torna a atuação em grupo mais eficaz e temível. Tal permitiu que, em vez de as combater, com recurso a antibióticos, cada vez menos eficientes, é possível iniciar uma outra espécie de luta, inibindo o referido processo de comunicação e assim impedir o terrível ataque em conjunto que é, na maoria dos casos, a verdadeira causa das enfermidades que nos afetam.
 
Numa altura em que a peleja tinha metodologias idênticas em ambos os lados da contenda, em que os remédios se iam “desenvolvendo” ao topa que acerta, baseados sobretudo na tentativa/erro, de vez em quando, aconteciam autênticas razias. Foi assim com a Peste Negra no século XIV que dizimou milhões de pessoas, com a Varíola levada para o México pelos colonizadores, em 1520 e, mais recentemente, já em pleno século XX, com a Gripe Espanhola que matou mais seres humanos que a Primeira Guerra Mundial, sua contemporânea.
A sistematização e aplicação do critério científico veio alterar a relação de forças, porque, do outro lado, de forma acelerada ou não, com ou sem superresistências, nada mudou, na forma de evolução e organização.
Contudo, nada garante que assim se mantenha. Nada impede que a metodologia e dedução matemática não possa ser aplicada em beneficio da produção, evolução e mesmo criação de novos agentes patogénicos. Se isso acontecer o panorama voltará a ser dramático e esta ameaça será de proporções inimagináveis. Se em vez de os combater, em exclusivo, houver conhecimento e tecnologia humana a “organizar e desenvolver” novos agentes patogénicos obviamente que a atual correlação de forças alterar-se-á com vantagem para o lado do Mal. O recente envenamento de Sergei Viktorovich Skripal, juntamente com a sua filha, com agentes químicos desenvolvidos em laboratórios é, sobretudo por isso, altamente alarmante. Se for disponibilizada ao inimgo uma cópia da arma que nos tem dado vantagem competitiva nesta batalha, obviamente que a nossa fundada esperança de um crescente controlo sobre as moléstias naturais que nos atingem, sofrerá um sério revés e haverá necessidade de procurar novas metodologias e processos mais sofisticados, científicos e eficientes que nos possam colocar de novo na dianteira. E, até lá, haverá de novo, custos muito elevados,  em sofrimento e vidas humanas!
 
 

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