A opinião de ...

Verdade e Justiça

Vivemos uma época em que grande parte das afirmações provenientes das organizações ou das pessoas que lhe estão associadas são provisoriamente verdade, e ao mesmo tempo, tendencialmente falsas, ou seja, a verdade e a falsidade parecem depender dos interesses em causa e do contexto. Não me revejo numa sociedade com estes princípios e admito que a grande maioria dos portugueses também não.
É comum associar ao termo verdade, entre outras, expressões como qualidade do que é verdadeiro, exatidão, rigor, precisão, realidade, boa-fé e sinceridade. Não querendo pessoalizar as contradições nem evocar qualquer nome, sugiro que se dê alguma atenção às notícias, das últimas semanas dos meios de comunicação social que envolvem políticos, lembro que estamos no início de maio de 2018.
Saliento expressões apresentadas, com os respetivos autores, no jornal público de 4 de maio de 2018: “Ficamos até enraivecidos com isto (…), com pessoas que se aproveitam dos partidos políticos.”, “São suspeitas sobre comportamentos que, a terem existido, significam crimes gravíssimos, mas eu não confundo suspeitas com acusações.”, “Tudo isto tem de ser revelado e discutido politicamente com seriedade e serenidade. O caldo de corrupção ainda está por aí.”.
As expressões apresentadas pertencem a figuras destacadas do mesmo partido político, e centram-se em duas individualidades que tiveram grandes responsabilidades governativas num longo período de tempo. A questão que me surpreende é esta: porquê estas manifestações agora? Pois, as individualidades em causa e que provocaram estas reações, ainda não foram julgadas, e uma delas, nem sequer acusada.
Após a constatação de uma vontade tão forte de se evidenciar a verdade dos factos, como cidadão, questiono: será que alguns políticos acreditam que os indícios de crime só merecem reflexão se os jornais os identificam? A justiça feita na praça pública é mais eficaz do que a decidida pelos tribunais? Porque razão não esperam pelas decisões dos tribunais para tomar posição que agora assumem? Porque não tomaram estas posições antes da comunicação social as evidenciar? Como é possível conviverem e trabalharem juntos sem terem detetado indicadores das situações que hoje os envergonham?
É bom que todos os partidos políticos estejam atentos aos indicadores de crimes, e outros atos condenáveis, daqueles que os servem, nomeadamente, corrupção, branqueamento de capitais, falsificação de documento, fraude fiscal e manipulação de concursos, para que situações suspeitas não venham a ser conhecidas tarde de mais.

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