A opinião de ...

De tamancos…

Identificam-se muito mais os homens pelas suas volições do que com a sua verdadeira substância, por isso a minha incapacidade em perceber a substância motivadora dos abrasivos socos, pontapés e insultos protagonizados por uma escumalha juvenil contra jogadores de futebol na Academia (vejam a deturpação do sentido de Academia) do Sporting. Se é evidente em nódoas negras, golpes e insultos a estupidez dos agressores, se é evidente a pulsão violenta e amestrada do bando, excluída a hipótese da autognose dos patifes, ficamos presos às nossas próprias opiniões massacradas pelas dos logos – psicólogos, sociólogos, antropólogos, neurólogos, politólogos – e outros que antes de opinarem deviam pensar na amplitude do vocábulo – logos – a palavra que nos ensina a pensar, coisa que os invasores desdenham. Pensar dá imenso trabalho, por isso ainda há dias li um artigo parlapatão onde o autor procurava explicar um prato de comida estiraçado na ética e na estética, esquecendo a lógica que no caso em apreço vai da beleza ao grotesco.
Ora, as variações opiniosas do acontecido leva-se a esquecer as sábias considerações de Huizinga e Callois relativamente ao jogo e retiro da saquita de emigrante o que vários brasileiros me disseram no decurso de uma estada no Brasil, a propósito de tudo e a propósito de nada informavam-me sorridentes que quando os portugueses do século XX se instalaram nas cidades brasileiras de acolhimento manifestavam a sua surpresa ante a arte dos jogadores canarinhos, pois os recém-chegados pensavam que o futebol se jogava com tamancos nos pés e a bola ser quadrada.
Os anos correram, os brasileiros acumularam êxitos, e o dia mais triste ocorrido na Nação foi no dia 16 de Julho de 1950, o Uruguai vence o Brasil e conquista a taça do Mundo. Dado o Brasil ser um enorme viveiro de jogadores estão espalhados pelos cinco cantos do Planeta, nós por cá fomos aprendendo, os progressos tão evidentes não se acantonaram no lado da virtude, o ocorrido em Alcochete demonstra quão evidente é o progresso e o que importa agora é suster a violência física, verbal e televisiva. Por razões de prudência deixei de frequentar os estádios, no entanto, continuo a estudar a matéria a fim de obter elementos que me facilitem o julgamento.
Não sei se os leitores viram o angustiante filme de Bergman – o ovo da serpente –, sendo as comparações odiosas, a proliferação e poder das claques no cercear a nossa liberdade de movimentos e de expressarmos opiniões a génese é a mesma do ovo venenoso que ensanguentou a Europa. Sim, a comparação é odiosa, escrevo-a e estou na disposição de apresentar argumentos e razões a provarem o aqui afirmado. Aqueles pensamentos e sentimentos são a gema do dito ovo. Lembram-se do filma A Laranja Mecânica? A repressão consequente explica a necessidade a violência empregue no banimento dos famigerados violentos. Na Inglaterra o ovo nazi foi vencido, o ovo hooligan extirpado.

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