A opinião de ...

Espaço litúrgico

Há já uns tempos que tenho uma dívida para com a boa gente de Pombares. Saldá-la por aqui não estava nos meus planos. Porém, por que não? A reforma litúrgica teve no Vaticano II um vértice e uma fonte. Vértice de um longo caminho preparatório, iniciado no século XIX na abadia francesa de Solesmes e assumido nos inícios do século XX nos movimentos juvenis alemães; Fonte de um programa de necessárias adaptações, inclusive no espaço litúrgico, uma vez constituídas as reformas da Sacrosantum Concilium. Onde não houvesse novas construções, pretendia-se que o espaço de sempre se tornasse adequado ao novo modo de celebrar. Provavelmente, o necessário pragmatismo e a hipótese da provisoriedade não permitiu muito cuidado estético. O celebrar versus populum foi facilmente viabilizado a partir da sede e do ambão. O mesmo não aconteceu quanto ao altar. Um dos problemas levantados na altura relacionava-se exatamente com a colocação do altar face ao povo, bem como com a sua relação com o tabernáculo. Alguns altares foram construídos, outros adquiridos, e outros separados do retábulo principal. Foram permitidos a título provisório altares portáteis. Nem sempre se pôde descontar a exiguidade do espaço e das leis civis. Se nalguns casos o ajustamento resultou, noutros não chocou mais do que toda a mudança na forma de celebrar. Melhoramentos foram feitos e continuam a ser graças ao zelo dos párocos e das comunidades. Hoje, penso que todo o trabalho realizado e a realizar se deve situar no grande contributo que a arte do espaço litúrgico pode tributar à evangelização e à espiritualidade. Para isso, vários dados jogam em nosso favor: não temos necessidade de convocar a pressa; temos o legado de tantos trabalhos bem realizados; temos gente com conhecimento a quem recorrer para pedir conselho e monitorização; temos técnicos qualificados e bem munidos; e continuamos a ter o interesse da maioria das populações em conservar e melhorar o seu património.
Podia citar aqui o exemplo de várias comunidades da nossa diocese que tenho visitado e onde tenho celebrado em espaços litúrgicos muito bem conseguidos. Ainda neste próximo domingo Rebordainhos fará memória da sua padroeira em torno dum novo altar, ambão e sede do presidente da celebração. Ali ao lado, Pombares conta também com um novo espaço litúrgico. No período em que lá paroquiei com o Pe. Manuel Rodrigues, sentimos necessidade, quer os párocos quer a comunidade, de melhorar o espaço celebrativo. Do interesse conjunto resultaram três peças, favoravelmente posicionadas, sobre as quais escreverei nos próximos artigos. E assim cumpro a promessa. Cinjo-me a Pombares, precisamente pelo compromisso assumido de escrever sobre as ideias que presidiram à concretização daquela obra. Para além da utilidade, procurou-se pela arte, simples e despojada, comunicar. O altar está ferido propositadamente, o ambão reproduz um túmulo cuja tampa partida o leitor pisa, a sede da presidência recorda ao sacerdote que só como discípulo crucífero pode ser modelo.

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3688