Continuam a brincar com o Interior

O Governo mandou as instituições de ensino superior de Lisboa e Porto cortarem 5% das vagas nos seus cursos para levar mais alunos a estudar no interior do país, mas menos de metade dos lugares cortados foi reforçar a oferta dessas regiões. Quase 53 por cento das vagas passaram para outras instituições do litoral, com destaque para as do Minho, Aveiro e Coimbra.
O parágrafo anterior pertence a uma notícia do Samuel Silva, do jornal Público, e traduz uma realidade para a qual já havia chamado à atenção há dois meses aqui neste mesmo espaço e com a qual foi também confrontada a Secretária de Estado do Ensino Superior, em Macedo de Cavaleiros.
Continuam a brincar com o Interior.
Desde os fatídicos incêndios do ano passado, o Portugal Metropolitano, como disse nas páginas do Mensageiro o Presidente da República, parece que se lembrou que existe um Interior no país, ali mesmo ao lado das praias da costa de Cascais. Carpiram-se umas lágrimas, fizeram-se umas flores, ajudou-se meia dúzia de nativos desse Interior e pronto, está aplacada a consciência de muitos “metropolitanizados”. Sobretudo dos que têm responsabilidades políticas e enchem a boca de medidas demagógicas para “ajudar o Interior”, como a redução de IRC ou o pagamento de bolsas a funcionários públicos que queiram vir para estas terras não do Oeste, mas pejadas de “selvagens”, coitados, que é preciso educar.
É esta a visão de quem nos olha, sobranceiro, das colinas do castelo de S. Jorge em Lisboa, para quem o Portugal é o que vê em redor, até à linha do horizonte. Tudo o resto é paisagem.
Sejamos sérios. Para combater o despovoamento (não a desertificação, mas também essa virá por arrasto) do Interior do país não basta anunciar um punhado de medidazinhas que nem no seu conjunto fazem mal a uma mosca.
È preciso a coragem que tem faltado à classe política que nos governa há décadas e que, durante esse tempo, foi arrebanhando todos os serviços públicos que pôde para o litoral.
A descentralização do Infarmed de Lisboa para o Porto, por exemplo, é uma piada, pois trata-se de uma oportunidade perdida de ser consentâneo com o que se diz. Querem, de facto, descentralizar? Tragam o Infarmed para Bragança, Vila Real Guarda ou Castelo Branco. Reabram escolas que fecharam por só terem 15 alunos. Desconcentrem os pólos escolares, para onde carregam crianças desde as 6h00. Coloquem quartéis militares nas zonas de fronteira (do Interior). Devolvam os serviços de agricultura, florestas, dos parques naturais, das Finanças, da saúde, da conferência de faturas, do turismo, aos concelhos de onde os retiraram nos últimos anos, arrastando com eles milhares de funcionários. Caso contrário, deixem-se de atirar areia para os olhos das pessoas. Fartos da banha da cobra andamos nós, há anos.  Como se  vê pela grande medida que iria beneficiar as instituições de ensino superior do Interior mas que afinal beneficia, sobretudo, as universidades do... litoral.