A opinião de ...

Ponto Morto…

Naqueles tempos, saudosos tempos, viajei algumas vezes a caminho do Douro, ao encontro de uma paixão, ali para os arrabaldes de Sedielos. A quinta, espraiada em vale fértil, com águas correntes e abundantes onde um Espigueiro respeitoso se erguia opulento, foi sonho de Família, foi a menina dos olhos de meu pai. Lá, entre a Régua e Mesão Frio correram tempos de menino, as poeiras foram companheiras de rodopio, conhecia de perto os ventos, amigos que me acariciavam vindos da majestosa Fraga da Ermida, mesmo no centro da Aldeia das Águias, de Guedes de Amorim.
A viagem, mas que loucura, talvez lá para 1958, descia de Padornelo em direção ao vácuo e ao nunca, algures no Marão e, em cada curva, tropeçávamos no enjoo misturado com pó eternamente apaixonado por vidros.
Lembro-me muito bem de meu pai ordenar a motorista amigo, muito cuidado com esta furgoneta, Ford verde, toca a descer sempre como nos ensinou Salazar, destravado. Eu, cá atrás, com os medos que se não contam, bebia a alegria de meu pai, pois que através dele me parecia tudo mágico, ria mesmo entre os vómitos que me cercavam.
Agora, pela sincronia cósmica, após uns míseros sessenta anos, dou comigo a remoer, a perguntar-me, por onde andaste? A mente, que não para, transporta-me para o Sendim da Ribeira, um pequenito ponto que fica ali por Detrás dos Montes. Alguém ditou que se trata de um pocinho de azeite pois que as oliveiras sempre viveram por ali, tudo em redor as venerava.
Quando lá cheguei, jovem cansado da vida, ia atrás de uma paixão, só que esta era de carne e osso. Tudo me acolheu, as gentes, os montes, os verdes, as ribeiras, os pássaros, os ventos da Frieira, mesmo as horrendas trovoadas. Parece que este caldeirão explodiu, apagando, torcendo o cansaço que de mim se apoderara.
Misturei-me nos caminhos, encharquei-me no Sabor que debaixo da Ponte de Remondes cantava, saboreei a bela posta do Saldanha da Saldonha, empanturrei-me com os peixes do cigano, mesmo onde morre o rio Sabor, naquela curva do Douro que nos enlouquece, numa Foz onde as águas se misturam.
Verões inesquecíveis, todos nos alegrávamos uns aos outros, filhos, mulheres, sobrinhos, tios, pais, avós, amigos, era fartura ansiada, desejada.
A casa, albergue na chegada, lapa na partida, é testemunha inerte de memórias. Conheceu-nos a todos, ouviu todas as vozes, guardou segredos, riu-se com os gritos estridentes das crianças que por ali se fizeram gente.
Agora, por mim e pelo que me contam, está só naquela aldeia. Por ali passou um varredor que tudo levou. As gentes, os machos, as searas, as águas da ribeira, as falas, os barulhos das bestas, a azáfama nos lagares de azeite, os sacos e os varejos da amêndoa, tudo se foi. Por detrás da casa, abençoado por um penedio que ali nasceu, jaz lugar mágico, lugar de confraternização ao redor da mesa.
Para esse sítio foi elaborado um azulejo, na melhor olaria de Faiança de Portugal, a Viúva Lamego, placa nunca colocada.
A esse lugar, encantado, foi dado nome, Ponto de Encontro. Tal como o carro de meu pai, os que restamos, as vidas são como são, deixaram este local em Ponto Morto…
  
 
 
 
 

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