A opinião de ...

O bispo que amou Bragança

Morreu D. António José Rafael. Os jornais deram a notícia classificando-o como “o bispo polémico”. Eu prefiro recordá-lo como o bispo que fez juras de amor eterno a Bragança e ao Nordeste Transmontano. Uma paixão que viveu até ao último cintilar da sua brilhante inteligência e, acredito, até ao último alento abandonar os seus lábios.
Em tempos em que o poder central foi extinguindo, um a um, quase todos os cargos distritais, deslocalizando as suas competências e decisões para cidades como Porto ou Vila Real, ele foi o único que se esforçou por manter bem alto o estandarte do distrito de Bragança.
Durante quase um quarto de século em que serviu a diocese de Bragança-Miranda como seu bispo auxiliar, vigário capitular e bispo diocesano, calcorreou montes e vales, sempre com o Nordeste Transmontano no coração. Foram suas “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem”, como preconizava o documento conciliar Gaudium et Spes. Tocaram-lhe particularmente os homens e mulheres que nasceram e vivem no nordeste de Portugal. Deu voz às suas reivindicações, chamou a atenção e criticou duramente o poder central e centralizador. Tudo fez para que estas gentes não fossem esquecidas e Bragança, como prometeu António Guterres, fosse colocada no mapa.
Estivemos muitos anos à espera de sermos colocados no mapa das autoestradas. Só aconteceu muitos anos depois de D. António Rafael ter passado o leme da diocese a D. António Montes. O Instituto Politécnico de Bragança continua a colocar a cidade e Mirandela no mapa nacional do ensino superior – e até do mapa internacional, pela sua classificação nos rankings. As outras instituições de ensino superior que D. António Rafael viu nascer na sua diocese, e que sempre acarinhou, desapareceram.
A sua paixão por Bragança ganhou corpo na Catedral. Será, por isso, para sempre recordado como “o bispo da Catedral”. Esta só foi possível graças à sua tenacidade e determinação para vencer todas as contrariedades e obstáculos.
D. António Rafael foi fiel ao seu amor. Não se comportou como aqueles bispos que o Papa Francisco tem condenado, que estão sempre a olhar para a diocese do lado, que consideram melhor que a sua. Custou-lhe sempre entender e aceitar a resignação. Sentia-se como um divorciado, até se resignar às conversas com sacerdotes que o visitavam para continuar a passar-lhes a sua preocupação de sempre – que D. José Cordeiro recordou na homilia das suas exéquias: “Ler Bragança, conhecer Bragança, estudar Bragança”.
Todos os amores exacerbados podem levar a cometer erros e exageros. D. António Rafael terá cometido alguns. Dificilmente, contudo, alguém nascido neste canto de Portugal terá lutado tanto, e até ao limite das suas forças, pelas suas terras e gentes, como ele. Vários, como Calisto Elói da “Queda de um Anjo” de Camilo, serviram-se da região, alcandoraram-se a altos cargos e depressa a esqueceram, passando a prestar vassalagem a outros amores.
Nesta hora em que se discute de novo o abandono do interior, precisávamos de homens e mulheres com a fibra do D. António Rafael para denunciar um país que, apesar de todas as promessas, demora a resolvê-lo.

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