A opinião de ...

NATRUMP

O Montenegro é uma pequena república dos Balcãs com pouco mais de meio milhão de habitantes. Há inúmeras cidades americanas e europeias com uma população superior. É um país independente desde 2006 e aderiu, recentemente, à NATO. Assumiu, como qualquer um dos restantes membros, as suas obrigações perante a organização militar ocidental e, tal como os outros, é credora de todos os direitos conferidos pelo Tratado do Atlântico Norte. O mais importante estabelece que qualquer ataque a um dos membros é interpretado como um ataque a todos. E, em consequência, uma ação militar levada a cabo no sudoeste da Europa terá como consequência um envolvimento de todo o ocidente europeu e dos estados Unidos da América.
Perante este facto, irrefutável, um jornalista americano questionou Donald Trump sobre a razão e lógica pela qual o seu filho deveria ir para o antigo principado arriscar a vida para o defender de qualquer ataque externo, nomeadamente da vizinha Rússia, cujas relações se têm vindo a azedar, sobretudo depois da adesão à Nato da ex-província da Jugoslávia. Perante a assertividade do entrevistador, o ocupante da Casa Branca, reconheceu a pertinência da questão, concordou com ele e foi mais longe afirmando: “O Montenegro é um país minúsculo com pessoas muito fortes. Podem ficar agressivos e, parabéns, estamos na Terceira Guerra Mundial”.
Pois.
Mas se o sr. Donald não encontra grande lógica ao facto de, para cumprir um tratado, qualquer soldado da terra do Tio Sam ter de voar para as margens do Mar Adriático e arriscar a vida para garantir a integridade territorial montenegrina perante uma qualquer ameaça dos poderosos vizinhos do antigo bloco soviético, que lógica encontrarão os cidadãos da pequena república, em entregar parte dos seus impostos a uma organização longíqua que gasta biliões a comprar armas caríssimas e sofisticadíssimas se não tiver, como contrapartida, precisamente essa garantia? Se não há grande lógica que uma qualquer investida de Putin nas Bocas de Cattaro provoque o “fogo e a fúria” do outro lado do Atlântico, que lógica e justiça poderá haver no uso das poupanças dos pequenos agricultores do vale do Tara e dos pescadores do lago Skadar para alimentar a mais poderosa organização armamentista do mundo e que é, precisamente, um dos maiores apoiantes e financiadores da campanha presidencial norteamericana?
 
Em boa verdade, sendo pequena a contribuição balcânica para a estratosférica despesa militar, também não é fácil vislumbrar o que é que de útil poderia ser feito, em tempo útil e com benefício claro e inequívoco para qualquer um dos cidadãos do antigo principado, do outro lado do mar de Itália, em situação bélica. Se não faz sentido que, a sua suposta agressividade possa potenciar a Terceira Guerra Mundial, que sentido fará a sua pertença à NATO? Tempos houve em que, à falta de outra, servia a razão de estar numa organização liderada por um democrata respeitador dos direitos humanos e observador da individualidade, bem estar e convivência de todos, sendo ou não cidadãos do mesmo país, em vez de uma outra, com iguais fins, mas com uma liderança totalitária e pouco respeitadora das liberdades, garantias e aspirações individuais. Mas será que esse argumento continua válido?

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