Rua do Cabecinho…

A praceta tem o nome de uma das ruas que nela desembocam. Nos fins de tarde, nas tardes dos Agostos de inferno, abrasadores e sufocantes, por aqui não vive ninguém, nem o zurzir das moscas se escutam. Os paralelos, granitos da região, aquecidos ao rubro, ajudam à festa, neste sítio grelham-se as mentes e as almas. As portas e janelas que se debruçam para este pátio há muito que deixaram de ter companhia, os ferrolhos, as dobradiças, as velhas fechaduras morrem de saudade de quem lhes dava o uso. Os rangeres que só nas madrugadas se ouviam, que aos vizinhos comunicavam provas de vida, foram sugados pelos tempos que não voltam.
As portadas da curralada dos Oliveiras, dupla boca engolidora de carros de lavoura, guarida de uma vida, dos machos do Sr. Arnaldo, Feitor daqueles Senhores, defendem o lugar, hirtas e austeras, guardadoras de memórias, o vermelhão esbatido e triturado pelos raios solares, deram-nas ao respeito, pela imponência.
Mesmo ao lado, dormem os degraus originários da casa-mãe dos Oliveiras, um velho Solar, dividido, pelo natural andamento das partilhas.
Por ali perto deixa-se abanar o portãozito dos  Saros, foram-se todos, mete dó o choro dos ferros que silvam em vaivém nas noites de ventania.
Por aqui existe um mono, branco pálido, de vergonha, chamam-lhe a Casa do Povo, construída em cima dos alicerces da velha escola  primária da aldeia, dos tempos das Regentes, nódoa que envergonha o casario envolvente e mancha os poderes locais da altura.
Ali mesmo na curva, apontando para a descida, impõe-se a casa dos Nabiços, sempre de atalaia, tem janeloco de vigia, por onde muitas vidas se espreitaram. Do lado direito, a descer, talvez a parede mais direita do lugarejo, de xisto castanho que arregala o olhar, obra de mestria dos Galegos que por aqui passavam, dominadores da pedra, artistas seculares. Do lado esquerdo a porta da ravessa do lar dos Ferreira, a porta dos fundos. De quando em onde, escancara-se no passar de afagos familiares em alturas de rodopio.
Estou na casa de Família, sentado em banco de pedra, xisto azul, rijo das profundezas. Dali, daquele sítio, observo apenas a calçada que me informará  dos que chegam. A porta dos baixos, do Sr. Arnaldo e D. Felismina, olha-me nos olhos, orgulhosa das joias que ostenta, a gateira e a raposa.
Uma brisa repentina levanta poeiras que por ali dormem enquanto as folhas de uma velha videira se abanam ao passar do fresco que nos cumprimentou.
Sabe bem viajar no tempo através da mente. Venho muitas vezes, a este lugar, tele transporte, ouvir os passos e as vozes que ecoam neste empedrado da calçada, sinto-os reais, conheço-os a todos, fazem parte de mim. Procuro-me neste lugar, busco-me entre os que partiram e os que comigo continuam o caminho. Por aqui senti a liberdade, bebi sofregamente o espaço e o tempo. Estou algures em Trás-os-Montes, na Rua do Cabecinho.