Next Stop – Alfarelos…

Pela manhã, após pequeno almoço, a rotina impõe-me obrigações, são tirânicos os costumes, drogas mesmo. Sento-me ao computador, dizer rotineiro, debruço as pestanas nos títulos gordos dos jornais diários online, livres de ónus e encargos. Sempre que o futuro aparece, largo o passado, entro pela notícia adentro, sempre parca, avanço para a pesquisa em todas as plataformas à disposição. O além suga-me.
Quando há noticia dos céus, olhando para o Cosmos, imagino os meandros, relembro nossos Descobrimentos, rodopio qual peão por entre as galáxias, sorrateiramente contorno os buracos negros, trespasso as malhas que separam os diversos universos no pluriverso, escapo às gravidades, extasio-me na luminosidade estrelar, fico perplexo na visão apocalítica e magnânima do big-bang,  deixo-me levar nas ondas gravitacionais, sinto-me formiguita com vida de micro segundo.
O desfile dos avanços é soro de vida, antecipação da eternidade. ADN, procriação in vitro, clonagem, transplantes, telecomunicações, chips, nano tecnologia, algoritmos, regresso ao passado, robótica, bosões, aceleradores, imunoterapia, remédios personalizados, quarta dimensão, veículos sem condutor, comboios levitados e, contudo, o mundo continua a girar no passado. Sinto-o tremer.
Um dia destes, porque o passado anda por aí com todos os problemas a ele associados decidimos nortear, ir ao Porto. Agora, os cabelos brancos têm mordomias respeitosas, embarcamos num intercidades terreno, com rodas mesmo e assentes no chão, há que aproveitar a condescendência democrática dos jovens para com os da idade terceira. E lá fomos, descansados, com ar de férias, malita Easyjet, voltados para a frente e à janela, casal típico dos velhos tempos.  Mas de android na mão, na moda.
Mas eis que na primeira paragem após partida, o futuro entra-me pelos ouvidos dentro, será que tímpanos furados me enganavam? Bem alerta esperei pela segunda paragem. Confirmava-se, era mesmo a inovação que me cumprimentava, afinal vivo num país para a frentex e, ali, naquela carruagem, senti-me inchado da minha portugalidade, apeteceu-me uma selfie comprovativa, das sonoras, realidade total.
Ah, os tempos mudam mesmo, gestores de topo, os tais Chairman rodeados de  Ceos, administradores, vogais e secretárias de carne e osso que ainda as há, já entraram na CP, o que ouvi é outra música, é pura organização, investimento forte em formação do pessoal, domínio de outras línguas, os tempos exigem.
No aproximar de uma paragem, voz bem timbrada anuncia, para dois tipos de passageiros, Tugas e Outros. Ao ouvir entrei em pânico, imaginei nossos queridos estrangeiros descerem às cambalhotas levando com as malas na cabeça, estonteados, alguns desesperados por falta da bagagem, roubada. Eis a voz:
Para os Tugas: -  Esteja atento à sua bagagem.
Para os Outros: -  mesmo nada.
Para os Tugas: - Senhores passageiros, próxima estação, Alfarelos, atenção à distância entre os degraus e a plataforma.
Para os Outros, só isto: - Next Stop – Alfarelos…