Entrevista // “O nosso futebol é uma mentira” Por: / Secção: Desporto / 20-02-2009 · 2 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Entrevista com Agostinho OliveiraO Mensageiro aproveitou a visita do seleccionador nacional Agostinho Oliveira à Associação de Futebol de Vila Real para o confrontar com a reformulação dos campeonatos de juniores B - juvenis. Na primeira pessoa, o actual treinador-adjunto da Selecção A justificou os motivos que o levaram a sugerir alterações, recusando ser esse o pior cenário para o Interior, e alertou ainda que Portugal “não tem condições para praticar futebol em regime de alta competição”.
Mensageiro Notícias (MN): Quando surgiu a primeira proposta para alteração dos quadros competitivos do futebol de formação?Agostinho Oliveira (AO): A alteração dos quadros competitivos da formação foi proposta em 1998. Juntei um documento orientador, o qual iria presidir a todos os conteúdos de divulgação e dinamização no trabalho de associações e clubes. Nessa altura, o quadro competitivo de juniores apresentava-se com um modelo – que está em vigor actualmente – de 16 mais 16 equipas, mais uma 2ª Divisão, e assim seria o de juvenis. Apenas foi aprovado, quer em juniores, quer em juvenis, na Assembleia-geral da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) de 31 Janeiro de 2001. Depois de aprovado, o modelo actual de juniores entrou em funcionamento em 2003 e o de juvenis, por uma questão de suporte económico, não pôde entrar.
MN: Manteve-se a falta de “suporte económico” até à época presente? AO: Depois passei para o futebol sénior em 2000, primeiro com a Selecção de Sub-21 e depois com a Selecção A. Nesse tempo, até regressar à formação, ninguém fez nada. De alguma maneira, o processo ficou bloqueado entre um departamento profissional e o departamento de futebol de formação. Ao ficar nesta situação fez com que todo o projecto de juvenis não encaminhasse naquele modelo ou noutro. Regressei em 2007 à formação, por exigência interna, e tentei diagnosticar se ia ou não avançar. Vimos muitos jogos, diagnosticámos e o grupo de trabalho foi concordante, tal como os clubes e agentes contactados. Na realidade havia um espaço competitivo que não era assegurado, que eram os sub-17 [atletas no primeiro ano de juniores].
MN: Como chegou a essa conclusão? AO: Há muita facilidade. A maioria das equipas faz a primeira fase do campeonato a passear e apenas na fase final é que há algum espaço competitivo. Mas já é tarde, porque andaram praticamente um ano sem espaço de competição a sério e em conformidade e coerência com a desenvoltura psico-motriz dos jovens. Coloquei o problema entre 2007 e 2008 à FPF, porque não podia continuar desta forma. Depois de algumas reuniões, manteve-se a falta de dinheiro para sustentar uma 2ª Divisão. Como não havia a possibilidade de fazer uma articulação conveniente para passar de um regional, não para uma 2ª Divisão, mas para uma 1ª, surgiu o modelo dos campeões distritais disputarem seis séries de quatro e os vencedores subirem, ou seja, de 24 sobem seis.
MN: Aqui não entra o pior cenário para os clubes do interior? AO: Há um documento orientador que vai integrar uma filosofia de entendimento, que pretendo que seja dos clubes, das associações e das selecções. Trabalharmos mais ou menos sob a mesma área modelar, na base de uma estrutura, equilibrarmos a qualidade do processo de treino, etc. Haverá ainda outro tipo de mudanças que pretendo introduzir, mas primeiro ainda vou falar com as associações. Será tentar redescobrir uma hipótese de podermos funcionar nas associações [campeonatos distritais] com os jogadores sub-15. No caso deles entrarem na 1ª Divisão de juvenis, já terão 16 anos e experiência. Os campeonatos distritais far-se-ão com os sub-15 e não com os sub-16 e os que fossem apurados para subir já teriam uma equipa sub-16, com rotinas de jogo e experiência entre eles.
MN: Mas, quando se fala de associações como Vila Real, Bragança, Guarda ou Viseu... AO: Criamos algum sentido de afecto, mas isto tem mesmo de ser assim. Quando as associações criam grupos de quatro não é com o FC Porto, o SL Benfica ou Sporting CP, porque esses já estão na 1ª Divisão. Se a equipa tiver capacidade num grupo de quatro é possível que seja campeã e, assim, justifica a subida ao Nacional. Actualmente, com 18 jornadas, as três últimas equipas dos campeonatos de juvenis estão a 30 ou 40 pontos do primeiro e algumas nem um ponto fizeram. Isto não pode acontecer, porque pretendemos uma realidade que não deixa de ser “todos jogarmos”, mas que terá de passar por um nível competitivo que seja forte. Se assim não for, estaremos a perder o futuro futebolístico deste País.
MN: Então, sacrifica-se o futebol do interior em prol de “um nível competitivo forte”? AO: Não estamos a falar de jogos florais nem de ocupação de tempos livres, estamos a falar de uma realidade competitiva que tem de ser colocada. Não estou a falar apenas de selecções. Neste momento, temos 53 por cento de estrangeiros na 1ª e 2ª ligas, porque não temos gente para ceder. Há muitos miúdos, é verdade, mas os clubes não os querem, porque não têm valor competitivo.
MN: A solução passa pelas associações deixarem de se lamentar e passar a acompanhar a evolução? AO: Logicamente. O espaço competitivo dentro da associação vai melhorar, porque há uma realidade competitiva transversal, pelo melhor trabalho e melhores condições. Contudo, há um problema, não só aqui como em todo o País: o nosso futebol é uma mentira. Vivemos muito na qualidade do nosso jogador, naquilo que pode produzir e também muito naquilo que produzem dele. Esquecemo-nos que não temos condições de praticar futebol em regime de alta competição. É mentira, não podemos.
MN: Porquê? AO: Em Inglaterra há 40 academias e 65 centros de excelência, ou seja, 65 clubes que têm as melhores condições para projectar jogadores. Se comparamos a academia do Sporting CP, o centro de excelência é melhor. O jogador tem tudo desde o jogo, treino, escola, com condições favoráveis. Temos apenas três clubes – FC Porto, SL Benfica e Sporting CP –, mais o Guimarães, que têm um plano infra-estrutural que se aproxima minimamente desta realidade, mas numa realidade ínfima.
MN: Contudo, somos um País que quer ser campeão do mundo... AO: Queremos ser, mas não temos o mínimo de condições para o conseguir. Estamos a uma grande distância de todos os países da Europa, porque o que queremos é aquele jogador que tem pinta, pega na bola, faz várias fintas e passa por todos. Estamos cada vez mais distanciados e, se não arranjamos forma de encurtar este distanciamento, não vale a pena. O nosso jogador ou se faz nas equipas de muito alta competição do nosso País ou então vai para o estrangeiro.
MN: O que falta melhorar? AO: A realidade é conjuntural. Se não temos condições para treinar os miúdos, não faltam apenas os treinadores, mas também a capacidade para conjugar algumas coisas. Não se pode exigir a um treinador que seja de nível se não há condições para ele treinar. Tens um pelado ou, então, dois campos para treinar sete ou oito equipas, isso não se pode exigir, não se consegue. É aqui que começa a tal mentira. Nestas academias que falei [em Inglaterra] há de oito a 12 espaços, um para cada escalão. Frederico Correia
Complementar
Os números de jogadores estrangeiros no futebol de formação sofreu uma quebra esta época. António Oliveira revelou que, no ano anterior, estavam inscritos entre 11 e 13 por cento, sendo que em 2008/09 essa percentagem desceu para os nove valores. “Esta baixa também se deveu a conversas com os clubes sobre a importância de todo um projecto, que deverá nivelar-se com as nossas exigências. O número de jogadores estrangeiros que conseguiam entrar nos campeonatos profissionais – 1ª e 2ª ligas – já ultrapassava o número de jogadores juniores nacionais”, justificou.


2 Comentários
cumprimentos para eles, mesmo nao sabendo quem sou (neste comentário)