Dança // Do Ocidente ao Oriente Por: / Secção: Cultura / 28-02-2009 Imprimir Enviar a um amigo
Uma bailarina lusa no Ballet Clássico da ManchúriaComeçou a desenhar o seu futuro com três anos, quando disse que queria ser bailarina. A mãe acedeu ao pedido e inscreveu-a nas aulas de ballet, sem imaginar que aos 16 anos a teria de ver partir para Londres, porque Portugal não a “preenchia”. Até aos 23, Brígida Neves estudou ballet e dança contemporânea em terras de Sua Majestade para depois abraçar o actual desafio da sua vida: “ser a única ocidental a dançar na China”. O Ballet Clássico da Manchúria apresentou “O Último Imperador” em Vila Real, no passado sábado, dia 21, e o Mensageiro falou com a bailarina lusa da companhia. Ainda antes de seguir a rota do Oriente, a portuguesa natural de Cascais procurou oportunidades nos Estados Unidos da América, mas a experiência quase acabou com os seus sonhos. “Estava a fazer um curso nos EUA, mas parti um pé e temi o fim da minha carreira. Entretanto voltei para Portugal, fui operada, colocaram-me dois ‘parafusos’ e, ao fim de seis meses, voltei a dançar”, afirmou aliviada. Actualmente com 24 anos e, apesar de tudo continuar a ser “estranho” a Oriente, Brígida Neves está perfeitamente integrada. “A língua foi uma barreira, mas os meus colegas foram muito simpáticos e, no primeiro dia, disseram logo que éramos todos amigos e se precisasse deles bastava falar. Talvez por isso não tenha sentido que a integração fosse muito difícil.” Contudo, a experiência poderia ter tido um fim prematuro. “Estava em Londres a trabalhar como freelancer e fiz uma audição para uma companhia na China. Quando cheguei lá, estavam a fazer cabaret e não ballet e, ao fim de uma semana, decidi que não era aquilo que queria fazer e fui-me embora.” Fugiu, mas não desistiu e, durante cinco meses, deu aulas de inglês e ballet aos pequenos chineses de Hong Kong até ser aceite pela companhia Ballet Clássico da Manchúria. Tal acabou por acontecer em Dezembro de 2007. “Agora que já falo alguma coisa de chinês, as pessoas sempre ficam mais simpáticas ao perceber que fazemos um esforço para falar a língua deles. Não falava nada chinês, mas a necessidade e o facto de estar sempre a ouvir ajudou a aprender”, admitiu.
A mesma arte, sentidos diferentes
Na China, Brígida Neves vive actualmente entre os mais de sete milhões de habitantes de Shenyang, a capital da província Liaoning. Já aprendeu algum mandarim, experimentou as diferenças culturais, sendo que aquilo que mais a surpreendeu foi a forma de “ver” e “fazer” espectáculos. “O estilo chinês é diferente, porque a base foi um pouco o ballet russo, enquanto na Europa temos mais o estilo francês e inglês, mas também alguma influência russa. Os movimentos chineses são diferentes, muito mais femininos.” Para os chineses, Portugal é apenas conhecido por causa de Macau, nunca em termos artísticos. “Não se conhece muito a dança fora da China, pois não há muita informação acerca disso. Muitos deles vêem a dança como um trabalho e há poucos que queiram aprender mais. Sou a única europeia e há um russo noutra companhia, porque nem todas as companhias querem ter estrangeiros, as duas mais importantes – Ballet Nacional da China e Ballet de Xangai – não aceitam estrangeiros.”
Regresso sim, mas não agora
Tem saudades de um “lar”, mas por agora vive para a arte na companhia chinesa, com quem tem contrato até Dezembro de 2009. “Ensaiamos das 9 às 18h, mas nas semanas em que temos espectáculo somos capazes de dançar das 9h à meia-noite e, às vezes, durante sete dias por semana.” Na peça “O Último Imperador”, com música de Shostakovich e Tchaikovsky, coreografia de Ivan Cavallari e direcção de Wang Xunyi, a portuguesa integra o corpo de bailado juntamente com mais de meia centena de colegas. Nesta semana, esteve em tournée pela Península Ibérica, mas já actuou na Califórnia, em Las Vegas e na abertura das provas de vela dos Jogos Olímpicos de Pequim, em Qingdao. Tem viajado pelo mundo e “experienciado coisas novas” e, por isso, está feliz, mas deixa a porta aberta a nova emigração. “Não sei se nesta companhia apreenderei muito mais, se aprenderei aquilo que desejo. Espero que o meu futuro passe por outros países”, confessou. Aos que como ela têm o sonho de ser bailarinos profissionais, deixou o simples aviso: “sejam perseverantes e tenham esperança”.

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