Página Inicial | Domingo, 14 de Março de 2010

Vimioso // O pilar da terra Por: Ana Preto / Secção: O Olhar / 19-06-2009 Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Ana Preto Teresa Nóvoa e Lucía Burbano com uma das fotos da exposição, ao fundo
Mulheres do Planalto Mirandês a partir do olhar de duas jovens provenientes de Lisboa e Barcelona

Esta não é a primeira vez que o rosto, o corpo, o conhecimento e o trabalho da mulher transmontana é alvo de uma apreciação que a coloca como pilar de todo um mundo à beira de um certo fim. A pintora Graça Morais, uma transmontana de origem, também faz essa análise, por tudo o que sabe e observou na sua vida. Desta vez são duas jovens cosmopolitas, uma proveniente de Barcelona, outra de Oeiras, que estiveram no terreno e olharam os rostos de uma mulher que confirmam “é um pilar”. Lucía Burbano é fotojornalista e veio de Barcelona, para realizar um estágio na Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPEGA). Propôs-se fazer uma reportagem fotográfica, sobre o papel das mulheres neste mundo rural. O trabalho foi complementado por uma série de entrevista e recolha de dados, realizada por Teresa Nóvoa, licenciada em Antropologia pela Universidade Nova de Lisboa. Do trabalho de ambas resultou uma exposição de fotografias, acompanhada pelo registo das vozes das mulheres, que expuseram as suas vidas. A exposição tem o nome “Sou Transmontana, Sou Mulher: Retratos” e esteve patente, pela primeira vez, na Casa da Cultura de Vimioso, no âmbito de mais uma edição do Festival Sons e Ruralidades, organizado pela AEPEGA, que decorreu na passada semana. Agora, prepara-se para se apresentar em outros espaços, levando rostos e viveres de mulheres de raça transmontana, mas, sobretudo mulheres. Lucía Burbano não queria fazer um registo demasiado fechado neste pequeno recanto, mas mostrar uma face “universal” da mulher. “O trabalho tem um aspecto local, desenrola-se aqui em Trás-os-Montes, mas eu não queria fazer retratos de costumes, aquelas cenas da mulher pousando ao lado de um animal, ou fazendo tarefas mais quotidianas. Queríamos transmitir algum tipo de sentimento, também para lhe dar um valor que possa sair daqui”, explicou. Para Lucía o que mais distingue estes rostos é a história que contam, sem disfarce. “Para mim, que venho de cidade, chama a atenção a falta total de maquilhagem, de cuidados estéticos. Os rostos destas mulheres contam muito mais uma história do que podem contar as mulheres de cidade, onde é uma vergonha ter rugas (tapamo-las, pintamos o cabelo). Aqui é tudo muito mais natural, mais directo”. Este é o primeiro trabalho que fez, especificamente com mulheres. Com uma bolsa de estudo, foi para o terreno fazer trabalho com uma colega da AEPEGA, que estava a fazer questionários aos proprietários dos burros, na aldeia de Caçarelhos. “Entrámos em todas as casas. Surpreendeu-me um bocado a imagem: era o homem lá sentado, pela tarde, e a elas, enquanto estavam a fazer coisas, é respondiam ao questionário”, explicou. A imagem que despertou a atenção da catalã foi a de “uma mulher muito mais activa, muito mais trabalhadora, quase como um pilar”. Essa imagem inicial veio confirmar-se à medida que o trabalho se foi desenvolvendo. Teresa Nóvoa considera que a desigualdade entre homens e mulheres e a secundarização do papel da mulher existe, também aqui, mas de uma forma muito menos vincada do que aquela que estava à espera quando partiu para o terreno. “Uma pessoa pode pensar, à partida (uma pessoa da cidade como nós), que vai encontrar no meio rural uma série de traços muito mais pronunciados, como a desigualdade em que a mulher deve muito mais ao marido e o marido controla muito mais a mulher e, quando entramos na casa das pessoas, percebemos que a coisa não é assim tão simples e que existe um bocadinho das duas coisas”, sublinhou Teresa. Existe sofrimento, violência domestica, existe machismo, mas também existe reconhecimento de um papel essencial que só uma mulher poderá desempenhar bem; existe reconhecimento por coisas que só as mulheres sabem; existe trabalho pesado que também as mulheres fazem. “A mulher sofre desigualdade, alguma discriminação, nalguns momentos, mas, por outro lado, também tem imensa força e essa força é reconhecida pelos próprios homens. Essa diversidade do lugar da mulher é que é interessante”, acrescentou a antropóloga. Se à mulher compete fazer o jantar e as tarefas domésticas, por outro lado também trabalha no campo, escava a horta. Ou seja, “há uma série de trabalhos físicos pesados que uma pessoa se calhar associava ao homem e que, na verdade, fazem parte do trabalho da mulher”. Lucía destacou que, aqui, as mulheres trabalham muito, dentro e fora de casa, e isto já vem de há muitas gerações, enquanto na cidade isso só está a acontecer nas últimas décadas. E a mulher moderna, que tem um emprego e tem que fazer também as tarefas domésticas e tratar dos filhos, não deixa de considerar isso uma tarefa por vezes demasiado desgastante. “Porque não temos tempo para estar com os nossos filhos, temos que trabalhar, ganhar dinheiro, mas aqui elas fazem isso e sem se queixar, praticamente”, sublinhou Lucía. Neste campo, a fotógrafa considera que a mulher transmontana está muito mais bem preparada para sobreviver sozinha. “Claro que há homens sós, mas dá-me a sensação que aqui uma mulher pode estar só, perfeitamente, e ir em frente, e a um homem lhe custaria mais”. Quanto à desigualdade e à violência, as próprias histórias que as mulheres contaram confirmam que existe, tal como também existe machismo. Por outro lado, “as mulheres também perpetuam esse próprio machismo. Lembro-me de ter uma conversa com uma das senhoras que primeiro dizia que “horror os homens que batem nas mulheres. Mas, depois, dizia: bem elas também não fizerem o trabalho delas. Não tinham o jantar a horas na mesa”, referiu Teresa. Estas mulheres, que sofrem e trabalham, “são um pilar da vida familiar, mas também um pilar da vida rural”. E, se de facto a mulher é esquecida, muitas outras é lembrada como a especialista sobre determinadas coisas. Muitas vezes “os homens dizem: não isso tem é que falar com a minha esposa, porque dessas coisas não sei”, sublinhou Teresa Nóvoa. Apesar de tudo isso, em muitas outras situações, a mulher é também aqui secundarizada e o papel desta exposição é igualmente trazê-la para primeiro plano, dar-lhe uma visibilidade e reconhecer-lhe o devido valor. “Acaba por servir um bocadinho para isso, para trazer dar rosto a estas mulheres e trazer-lhes alguma visibilidade”, acrescentou a antropóloga. O trabalho resultante desta exposição poderá ser continuado, no sentido de um aprofundamento, ao nível científico. Apesar de não haver um trabalho conclusivo na parte da investigação e não ter havido um enquadramento do trabalho de campo em quadros antropológicos, esta recolha de imagens e testemunhos teve uma componente de investigação que poderá ser continuada. “A AEPGA tem vontade de apresentar projectos nesta área e também é um tema que neste momento vem muito a baila. É fácil conseguir apoios para esta questão de género. Se a isso juntarmos o facto que é no meio rural, que em Portugal é desfavorecido, ainda mais fácil é conseguir alguns projectos”, referiu Teresa Nóvoa. Entretanto o mesmo projecto vai ter lugar no meio rural da Catalunha, em Espanha, e da Roménia, através de uma candidatura do projecto ao Programa Juventude em Acção, e vai ser desenvolvido em parceria com outras associações locais, desses países. A ideia é depois fazer também desse projecto matéria de divulgação. Para Teresa, a realização deste trabalho em Trás-os-Montes foi um primeiro passo para a questão da valorização da mulher no mundo rural.

O que achou desta notícia?

0 Comentários Feed

Deixe o seu Comentário

(necessário)

(opcional)

(opcional)

(necessário)

Nota: Os comentários são da exclusiva responsabilidade dos seus autores.


Login de Assinantes //

  Recuperar password

Última edição em PDF
Edição 3261 - 11 de Março
Publicidade // Anuncie aqui... Estatísticas das notícias // Últimas notícias por secção //