Bragança // “Vivemos num tempo de ausência de líderes” Por: / Secção: Igreja / 17-07-2009 Imprimir Enviar a um amigo
D. Carlos Azevedo abordou vida do Santo Condestável e não deixou de referir a mensagem da nova Encíclica do Papa Bento XVI, apelando a um novo desenvolvimento económico e socialA vida de D. Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, foi o ponto de partida para D. Carlos de Azevedo, bispo de Lisboa, apelar à reflexão sobre a necessidade de encontrar um novo modelo de desenvolvimento económico e social. Na semana passada, a convite da paróquia do Santo Condestável, em Bragança, D. Carlos abordou, numa perspectiva histórica, a vida de D. Nuno e os factos que o tornaram um santo, canonizado primeiro pelo povo e só recentemente pela Igreja. Ao mesmo tempo, o bispo auxiliar foi comparando a crise de então com a actual para concluir que este é um tempo marcado pela “ausência de líderes”. “Os líderes do mundo são muito débeis, do ponto de vista pessoal. Talvez lhes falte o transcendente, que era o que animava D. Nuno Álvares Pereira e o fazia ser destemido, enfrentar o rei, os letrados, os nobres e o povo. Era a solidez da sua vida interior que o fazia ser capaz de ter um ideal e passar a sua fé”, apontou, concluindo que “aos líderes falta a noção de Deus”. “Deus está ausente na cultura contemporânea e quando essa dimensão está ausente, os valores não têm energia que façam levar por diante as pessoas”. Para D. Carlos, esta ausência de valores e de uma dimensão espiritual está a levar as pessoas a viver no imediato, nas emergências e dificuldades do dia-a-dia, sendo que à Igreja cabe o papel de ajudar a repensar um modelo de vida e de desenvolvimento económico e político que permita um “futuro risonho”. “As pessoas têm medo do futuro, têm medo de ter filhos, têm medo de arriscar nas empresas. Têm medo e a insegurança mina as relações, mina mesmo a coesão social. Não havendo valores, não havendo segurança, não havendo emprego, não havendo nada que sustente a esperança das pessoas, entra-se no desespero”. Nesse sentido e abordando a Encíclica do Papa Bento XVI, D. Carlos Azevedo apontou a necessidade da política deixar de se “subjugar” à economia, comparando novamente com o exemplo da figura histórica que foi D. Nuno Álvares Pereira. “D. Nuno foi uma alva revolucionária cujo magnetismo lhe vem do seu forte carisma e pureza de alma. Também um bom líder é aquele que comanda e tem antevisão, que é firme, honesto e verdadeiro ao invés de se subjugar ao marketing e dizer aos eleitores aquilo que eles gostam de ouvir”, apontou. A perspectiva da Igreja para sair desta crise deve passar, segundo o bispo, pela alteração do estilo de vida e mentalidades consumistas, nem que isso signifique “remar contra a maré”. “Temos de pedir às pessoas para sejam sóbrias e austeras. As saídas para este problema não podem ser falsas, ilusórias e enganadoras. Que adianta dar o subsídio de desemprego a quem não trabalha se depois temos pessoas a trabalhar dez e mais horas? Divida-se o trabalho, que é um bem escasso, e reduzam-se os salários”, exemplificou. D. Carlos quer uma nova “pedagogia social” que permita às pessoas encontrarem novamente confiança no futuro e, indo às raízes da História de Portugal, apontou que momentos de crise, como o actual e como o de 1383-85, “revelam que somos capazes de dar a volta por cima”. “O que é preciso é pensar e deixar que a esperança e a confiança nos abrace”, concluiu.
D. Nuno, “São Portugal”
D. Nuno Álvares Pereira é considerado uma das maiores figuras de Portugal e da História Militar, onde são raros os invencíveis. Com um forte carisma, conseguiu arrastar um exército, sem qualquer formação, à batalha de Aljubarrota, tendo enfrentado o rei, os interesses dos nobres e da corte, pela independência do país. Diante de todas as dificuldades e diferenças de exércitos, lutou pela devolução da dignidade e liberdade ao país, sem cedências. “Pensava pela sua cabeça e sem ele Portugal não seria hoje Portugal” e, por isso, o poeta Fernando Pessoa chamou-lhe “São Portugal”. Exigente na execução dos princípios éticos e morais, enfrentou uma guerra justa e nunca castigou os inimigos por vingança. Os homens tinham dele mais reverência que temor. Aquando da guerra, chegou a distribuir alqueires de trigo pelo inimigo, numa atitude de ética cristã que marcava toda a sua vida pública e privada e que levou o cronista Fernão Lopes a compará-lo a Moisés. Sabia repartir com generosidade. Foi mesmo o fidalgo mais rico de Portugal e distribuiu tudo o que tinha para escolher o caminho de total oblação. Reduzir a sua canonização a um suposto milagre concedido a alguém é, no entender de D. Carlos, falta de conhecimento, até porque ninguém é canonizado por milagres ou curas. “A pessoa, antes de mais, tem de ser santa. O importante foi o que ele fez na vida e, de facto, é uma figura raríssima, de uma grandeza moral e de princípios e, ao mesmo tempo, de uma clarividência sobre o que era bom para Portugal que só o fazer memória dele nos dá vontade de ser melhor”.
Relação do Condestável com Bragança em estudo
Constatando a falta de investigações académicos sobre D. Nuno Álvares Pereira, a autarquia de Bragança lançou o desafio à Paroquia do Santo Condestável para que fossem desenvolvidos mais estudos sobre a relação que o Condestável do reino teve com Bragança. A paróquia do Santo Condestável foi a segundo do país a ser constituída em honra de D. Nuno, mas a relação deste personagem histórico com a cidade talvez não seja conhecida de grande parte da população. D. Nuno, enquanto cavaleiro medieval e chefe das tropas, braço direito do rei, esteve com as tropas em Bragança aquando do Tratado de Babe e noutros momentos. Esteve aqui também aquando do casamento da sua única filha com D. Afonso, que deu origem ao ducado de Bragança e, mais tarde, à quarta dinastia de Bragança, a casa mais forte do país, a seguir à casa real. “Desenvolver uma investigação, nos tempos próximos, e dar a conhecer a História aos jovens, faz todo o sentido”, considerou o autarca Jorge Nunes, presente na conferência. A conferência sobre D. Nuno Álvares Pereira abriu as comemorações das festividades em honra do Santo Condestável, que se encerraram no dia 12 com a Eucaristia presidida pelo bispo da Diocese, D. António Montes.

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