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Genísio – Miranda do Douro // Tradução manuscrita da Bíblia Por: Ana Preto / Secção: O Olhar / 18-07-2009 · 5 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Ana Preto
Durante anos reescreveu, na língua materna, a Sagrada Escritura. Hoje, quando lê, diz que não se cansa

Domingos Augusto Ferreira, de 62 anos de idade, natural de São Martinho de Agueira, residente em Genísio, Miranda do Douro, resolveu ocupar os seus dias de um modo original e lançou-se a um trabalho que muitos considerariam impossível. Começou o trabalho de “tradução” da Bíblia do português para o mirandês, a sua língua materna, de casa, da aldeia, da família, ainda antes de essa língua ter sido oficializada como segunda língua de Portugal. Nesse tempo não havia Convenção Ortográfica, nem dicionário que lhe pudesse valer. Fez tudo de memória, lembrando o falar que tinha aprendido antes de entrar para a escola. “Escrevi a partir da tradição oral, o que aprendíamos com a nossa mãe e colegas da aldeia. O mirandês, desde o raiano até ao sendinês varia muito, e eu procurei transcrevê-lo para o livro como as nossas mães e os nossos pais nos ensinaram”, explicou ao Mensageiro. Em 1999, quando a Assembleia da República aprovou a lei que concedia ao mirandês o estatuto de segunda língua oficial de Portugal, já tinha traduzido o primeiro volume. Essa oficialização deu-lhe ânimo para continuar. Note-se que estas traduções foram feitas em manuscrito e depois foram devidamente encadernadas. A oficialização faz este ano 10 anos, que foi precisamente o tempo que demorou Domingos Ferreira a fazer a transcrição e tradução do Antigo e Novo Testamento.
Só tem pena de não ter usado sempre a mesma caneta, para manter a uniformidade total que uma caligrafia cuidada e já pouco frequente permitiu. Contou-nos que foi traduzindo e escrevendo directamente, sem rascunhos, porque se tivesse perdido tempo a fazer ensaios talvez não tivesse conseguido terminar a tarefa.

Uma maneira de ocupar melhor o tempo livre

Tudo começou numa altura em que não tinha trabalho e não sabia como ocupar o tempo livre. Também nos confirmou que é católico, ou pelo menos procura sê-lo. “Eu procuro, se bem que cem por cento suponho que não exista, mas eu procuro seguir a religião que nossos país nos incutiram”. Além da religião herdou a língua que, nos tempos em que foi estudar para o Porto, por vezes lhe causava “embaraços”. Fez o antigo Quinto Ano na Escola Soares dos Reis, onde tirou o curso industrial de tipógrafo, terminado em 1966. “Quando andava no Porto achavam um bocadinho esquisito porque, de vez em quando, as palavras atiravam-me para o mirandês e como estávamos lá, num centro de Portugal, onde isto não era imaginado, quanto mais conhecido, a mim chamavam-me muitas vezes o canholas, de espanhol”. Espanhol também falou, porque depois de ter sido obrigado a deixar África, ainda foi emigrante em Espanha. Em Angola havia cumprido o Serviço Militar e já estava a trabalhar, como tipógrafo, em 1974. Depois foi para Espanha, onde trabalhou na construção, mas outros problemas surgiram, ficou sem emprego e teve que regressar a Portugal. Foi viver para a aldeia da sua mulher, Genísio. Ainda trabalhou como tipografo, em Palaçoulo, mas, como as condições trabalho também não eram as melhores, surgiram os computadores e as novas tecnologias, não conseguiu adaptar-se. De modo que lhe sobrou tempo, entre os trabalhos nas hortas e as quotidianas ocupações. “Às vezes chagava das hortas e, nesta horas de mais calor, vinha para aqui. No inverno trabalhava na cozinha, ao pé da lareira. Passava as horas nisto”. Com a tradução terminada, anda agora num Curso das Novas Oportunidades, em Malhadas, para tirar o 12º ano.

Mirandês é mais musical

Nesse curso não põe tanto enlevo como na sua tradução, que não segue a Convenção Ortográfica, nem seguirá outras, mas foi feita com o prazer de uma língua que torna tudo um bocadinho diferente, um pouco menos pesado que o português, um pouco mais carinhoso ou alegre o que se escreve e diz. “A gente estava habitada a ler a Bíblia em português e ao estarmos a lê-la em mirandês encontro interessaste, patusco, parece que tem mais sabor. Estamos naquela língua em que estamos no meio, que é a nossa. Em português, se eu ler, ao cabo de meia dúzia de linhas já estou cansado. Ali parece que me anima a ler a Sagrada Escritura. Perece ter outra musicalidade”, explicou. Domingos tem pena que hoje se fale menos mirandês. “As pessoas deveriam exercitar um bocadinho mais essa língua, porque é a tradição oral dos nossos pais, nos nossos antepassados. Em Miranda não se fala e é uma pena”. Ele continua a falar, em casa, com a família, ou com os amigos da aldeia. De resto, desde que foi para a escola, o português entrou na sua vida como língua “principal”, na qual tinha que falar, para não lhe serem atribuídos “epítetos”. “O português tivemos sempre que o acompanhar, porque na escola era obrigatório”. A traduzir a Bíblia, prática do uso do mirandês não lhe faltou, mesmo quando não obedece às actuais regras ortográficas. A edição manuscrita já esteve em exposição no Museu Terras de Miranda. A Casa da Cultura Mirandesa é outro dos espaços onde a tradução poderá ser apreciada. Mas só apreciada, porque este original, que saiu das suas mãos, é também uma herança que quer deixar aos seus descendentes.

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5 Comentários Feed

General Arménio Nuno Ramires de Oliveira · escreveu em 19-07-2009 às 11:19:53
Sou de Bragança. Servi como Alferes e Tenente em Bragança no saudoso Batalhão de Caçadores 3. Aqui tive contacto com os mirandeses que admirei, acarinhei e quis que fossem os meus colaboradores principais. Via os meus soldados a falar o mirandês e sempre apoiei que deviam conservar a sua língua porque era um património valioso.
O trabalho desde Senhor é espantoso e devia ser conservado como relíquia do valor mirandês.
Joao Serdoura Santos · escreveu em 21-07-2009 às 02:13:41
Ja tive oportunidade de ver a obra e fiquei bastante impressionado com a caligrafia com Sr. Domingos Ferreira de S. Martinho de Angueira, terra bonita e de boa gente.
Sou do Porto mas trabalho nesta bela terra que é Miranda do Douro e devo dizer que é uma pena que a lingua nao se fale mais. Utilizando as palavras do Sr. Domingos Ferreira, que ja tive o prazer de conhecer, "Se no país Basco se fala Basco, porque nao se fala Mirandês em Miranda...".
A lingua e Uma lingua cantada e que se for falado devagar se entende bem.
Esta cultura da lingua e desta terra de tradiçoões celtas deve ser cada vez mais defendida. E na minha opinião esta obra tem categoria de ser apresentada em museus por esse pais fora...
Com muitas outras coisas por dizer e defender despeço-me.

ten siempre.
José Fernandes de Assis · escreveu em 25-08-2009 às 17:18:53
Só tenho, como teólogo, aue admirar o feito desse irmão português. Não sei como ter contacto com o Sr. Domingos, mas sugiro aqui que a obra seja digitalizada e colocada na internet para que o mundo tenha acesso.
Domingos Augusto Ferreira · escreveu em 28-08-2009 às 01:18:28
Agradeço as palavras de apreço que me foram acima dirigidas e é claro que gostaria imenso de ver este trabalho publicado.

domingos.ferreira1948@hotmail.com
Gil Vicente · escreveu em 03-01-2010 às 02:24:43
Ocorreu-me que o Mirandês será Português Antigo, preservado por séculos de interioridade. Agradeço pareceres.
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