Entrevista // Jorge Nunes determinado Por: / Secção: Actual / 11-09-2009 Imprimir Enviar a um amigo
Candidato explicou que não é teimosoEm entrevista ao Mensageiro, ocandidato do PSD à Câmara Municipal de Bragança, falou das razões que o moveram a recandidatar-se, de algumas das críticas que lhe são feitas, do modelo de regionalização que defende e da cidade que espera deixar melhor do que alguma vez foi, considerando que tem em alta estima a sua história, ou passado
Mensageiro Notícias: Bragança foi alvo de um grande ciclo de investimento. Contudo, uma das críticas da oposição é que esse ciclo de investimento não se traduziu num aumento de actividades económicas e emprego. Como encara essa crítica?
Jorge Nunes: Essa crítica não é correcta. Por duas razões. A primeira é que ela está mal direccionada. Devia ser direccionada para o centralismo da administração central, que tem continuado, desde há muitos anos, a concentrar a população e a economia no litoral, a desqualificar o interior, deixando-o um pouco entregue a si próprio, criando mais desigualdades territoriais, mais desigualdades entre os cidadãos e mais empobrecimento para o país. Isso tem a ver com a política nacional. Ao nível da política local, também é contraditória essa afirmação, desde logo porque, se fizemos o maior ciclo de investimento das últimas décadas em Bragança, ele só pode ser feito à custa da criação de postos de trabalho durante a fase de execução e para garantir a conservação ou a gestão inerentes aos investimentos que foram feitos. A nível de equipamentos desportivos e, fundamentalmente, a nível de equipamentos culturais, o município criou algumas dezenas de postos de trabalho por via directa ou indirecta. Pelo contrário, a acção da administração central foi esvaziar cada vez mais os serviços sediados na capital de distrito. Essa crítica também tem um outro efeito, que é negativo, porque penaliza a iniciativa dos cidadãos das empresas e das instituições. Se em Bragança, numa década, o poder de compra cresceu 20, 6 pontos percentuais, sendo uma das cidades do país em que mais cresceu, isso não caiu do céu. Foi o esforço dos cidadãos, das instituições, das empresas que permitiu essa grande evolução. Por outro lado, é uma desatenção grave quando não se percebe que as visitas a Bragança são hoje muito mais frequentes da parte dos turistas. A cidade ganhou atractividade e veja-se, por exemplo, o número de dormidas que foram registadas em 2007, que supera as 100 mil. Foram exactamente 101 148 dormidas. Em 2008 e 2009 há-de ter havido um crescimento. Essa é a tendência. É uma tendência de crescimento da actividade económica e não de diminuição, apesar da situação adversa em que se encontram as cidades fronteiriças do interior, face a um centralismo excessivo que esmaga e atrofia tudo o que não está à volta das duas áreas metropolitanas.
MN: Um exemplo da falta de vitalidade de Bragança é que os comércios da zona histórica continuam a encerrar.
JN: A situação económica do país, por aquilo que se lê e sabe, lança para o desemprego, todos os dias, centenas e centenas de trabalhadores, conduz ao encerramento de imensas pequenas empresas. A situação do país não é boa, mas o nosso comércio cresceu imenso. É um comércio que é naturalmente afectado pela crise que o país vive, mas quero elogiar e salientar a força e determinação do comércio tradicional da nossa cidade. Tem conseguido, nos últimos anos, modernizar-se, crescer, diversificar e resistir a uma concorrência muito forte que hoje em dia é feita pelas grandes superfícies comerciais e também pelas cidades próximas. O comércio da nossa cidade é muito atractivo, é um comércio em que vale a pena continuar a investir. Os comerciantes devem continuar a ter espírito empreendedor. Tenho confiança de que os comerciantes são homens de luta, que, quando se instalaram, deram o primeiro passo, fizeram-no correndo o risco e eles vão continuar a carrê-lo, continuando a apostar no desenvolvimento da sua actividade comercial. Seguramente já passaram por ciclos mais difíceis, sendo certo que este é um ciclo que os afecta imenso. Por exemplo, o acesso ao crédito é feito em condições extremamente difíceis, dado a taxa Euribor ser das mais baixas de que há memória.
MN: Existe alguma obra que se arrependa de ter feito, exactamente tal qual a realizou?
JN: Não conseguimos fazer obras perfeitas. Ninguém faz. Mesmo nas nossas pequenas obras, na nossa casa, quando começamos chegamos ao ponto final e gostávamos de fazer de forma diferente. Na parte da obra pública não é muito diferente disso. Quando se termina, embora sejam obras mais amadurecidas, sob o ponto de vista do projecto, com equipas mais qualificadas, com supervisão de projectos, mesmo assim, quando se chega ao final, há sempre erros cometidos. Eu prefiro fazer uma apreciação de carácter geral positiva, na certeza, porém, de que nem tudo é perfeito e também, por mais perfeitas que sejam as obras, há sempre alguém que diga mal, porque há gente que diz mal de si próprio, quando não pode dizer mal de mais nada. Temos obras que são hoje uma referência. Por exemplo, o espaço onde nos encontramos é bem um exemplo disso. O Centro de Arte Contemporânea foi um projecto premiado, com o prémio Internacional de Arquitectura 2009, num concurso extremamente competitivo. Isso é motivo de uma grande satisfação e orgulho para todos nós. Poderia citar outros, de boa arquitectura que tem sido feita nos últimos anos na nossa cidade.
MN: O que mais se orgulha de ter realizado?
JN: Eu orgulho-me de todas. Das obras pequenas e das obras grandes. Sinto muita satisfação quando conseguimos resolver o problema de uma família, por exemplo, melhorando as condições de habitabilidade numa aldeia. Sinto muita satisfação nessa obra como sinto quando se faz um bom jardim, que serve o embelezamento da cidade, a qualidade de vida e bem estar dos cidadãos. Como sinto orgulho da obra e equipamentos feitos na área cultural, onde há uma marca presente muito forte que prevalecerá para o futuro. Eu não sou capaz de diferenciar uma obra que me dá mais satisfação. A obra geral é uma obra de todos, feita com empenhamento de muita gente, projectistas, operários, construtores, gente que está ligada à fiscalização, cidadãos que comentam pormenores... Sinto que devemos valorizar a obra no seu conjunto. Há 12 anos atrás a maior parte dos bairros da cidade estavam com ruas em terra batida. Oitenta e sete ruas dentro da cidade foram pavimentadas. Na área rural fizemos acima de 500 mil metros quadrados de pavimentações em ruas em terra batida. Isso correspondeu a uma melhoria da qualidade de vida, das condições sanitárias, para as pessoas que ali habitam. Essas obras, que hoje se começam a perder na memória das pessoas, não serão eventualmente mais importantes do que aquela obra de referência que é observada pelos turistas e por nós no dia-a-dia?
MN: É importante, para si, a nível pessoal, ficar na história da cidade?
JN: Eu não tenho tempo de reflectir sobre essa matéria, nem me preocupo absolutamente nada sobre isso. Isso é uma apreciação que há-de correr, negativamente ou positivamente, por parte das pessoas, eventualmente já na minha ausência. Preocupa-me, sim, que aquilo que é feito satisfaça objectivos de progresso, desenvolvimento e bem estar e, com esse trabalho, que os cidadãos sintam orgulho da sua cidade e da sua terra. Essa é a minha preocupação fundamental.
MN: Por vezes é criticado por ser teimoso e demasiado “auto-suficiente”, no sentido de que gosta das coisas à sua maneira. Como encara essas críticas? JN: Eu acho que há uma confusão entre teimosia, auto-suficiência e determinação. Eu prefiro colocar-me mais do lado das pessoas com determinação. Não acredito que fosse viável concretizar o maior ciclo de investimentos de sempre no município de Bragança se não houvesse determinação para impulsionar a elaboração dos projectos, a execução das obras, encontrar os meios financeiros e pressionar os colaboradores. Essa determinação conduz-nos muitas vezes a uma pressão muito forte, muito insistente, para que os objectivos sejam concretizados e concretizados com respeito pleno da regularidade, em termos administrativos, em termos legais. Não referi isso na pergunta anterior, mas, se há um motivo de grande satisfação para mim, associada à gestão da Câmara Municipal, é que passados 12 anos, o município tem uma imagem plena de respeito da legalidade, de respeito da transparência e orientação por valores de justiça, de prudência na decisão e de rectidão na avaliação dos problemas. Essa situação sinto-a com grande satisfação. Ela é, de forma inquestionável, reconhecida por pessoas que têm atribuições e competências na área da inspecção aos municípios. Aquilo que conta, de facto, é o que se faz bem a favor da comunidade. Há momentos em que somos chamados a exercer funções de natureza pública e a dar o melhor a favor da comunidade. Eu não espero nada em troca, nem o reconhecimento por isso. Saliento que, em 12 anos de governo o tempo vai deixando amigos para trás e vão-se conquistando novas amizades. Há situações de decisões que são complexas, difíceis. Nem sempre é fácil compatibilizar o interesse legítimo, individual, de cada cidadão, com aquilo que é prioridade do interesse público. Ainda assim, os colaboradores que estavam próximos continuam próximos. As pessoas com quem mais lido, os trabalhadores do município, as chefias, tenho amizade por todos e sei que essas pessoas também têm respeito pelo trabalho que é desenvolvido e pela pessoa do presidente da Câmara. Isso também me deixa satisfeito. Não sinto, quando dou ordens, quando sou exigente, quando sou determinado, má vontade, a exigência da obrigação da imposição. Pelo contrário. Eu sinto a preocupação das pessoas em fazer o melhor possível, em, por iniciativa própria, trocarem impressões relativamente às tarefas que desenvolvem, o que deixa bem presente um espírito de equipa na gestão do município. De resto, quem não tem determinação seguramente não tem capacidade de implementar e dar ritmo à execução dos programas de desenvolvimento. Neste trabalho determinado, a minha proximidade às pessoas é muito elevada. A porta do meu gabinete está aberta para as pessoas que não sabem que o presidente da Câmara pode ter uma agenda preenchida e sobrecarregada. Já não o faço, por sistema, às pessoas que têm mais formação e sabem qual é o grau de exigência na resposta que um presidente de Câmara tem que dar aos problemas e a agenda pesada com que tem que lidar.
MN: O que Bragança precisa para deixar de ser uma cidade provinciana, no sentido mais amplo?
JN: Eu acho que a nossa cidade é uma cidade de província, mas que também tem uma história e uma identidade fortíssimas. O nome de Bragança está espalhado por vários cantos do mundo. Bragança foi sempre uma terra de afirmação, uma terra de gente leal, de gente de trabalho, de gente de muito valor. Tem sido assim ao longo dos séculos. Nesse âmbito, Bragança é uma cidade geograficamente de província, mas que tem estado sempre presente em decisões muito importantes da história do país. Temos que ter essa perspectiva presente, valorizá-la, para que, no futuro, as próximas gerações continuem a dar valor àquilo que tem sido construído com muito esforço, por gerações anteriores. Eu respeito muito o trabalho feito por gerações de bragançanos que dignificaram, honraram a sua terra com grande valentia, muita lealdade, muita integridade. Bragança é hoje uma cidade europeia, uma cidade urbana, com uma imagem urbana ao nível do melhor que há, em termos de espaços públicos, em termos de equipamentos culturais em termos de oportunidade. É uma cidade com uma qualidade notável que tem sido reconhecida, sistematicamente, por várias avaliações externas. É uma cidade segura, onde as pessoas se olham com algum carinho, onde se respira ar puro. Não é uma cidade em que os cidadãos se sintam isolados. Temos potencialidades enormes que não podemos descurar e desvalorizar. Quantos turistas vêm de vários países e escrevem para a Câmara a dizer que são poucas as cidades que visitam e encontram tão limpas, onde vejam com tanta facilidade um sorriso nas pessoas, uma expressão forte e uma identidade afirmativa evidente. Ainda recentemente, num Programa da RDP Internacional o jornalista perguntava o que é que nos motivou a ter uma cidade tão florida, a apostar tanto no verde, na imagem de qualidade, quando isso é típico mais de cidades da Europa do norte? Bragança é uma cidade europeia, vamos valoriza-la como tal.
MN: Que modelo de regionalização defende?
JN: Tem que haver duas evoluções para que ao interior seja devolvida a voz que o centralismo tem vindo a retirar ao longo de décadas. Com o modelo de Governo que temos tido o interior ficou vazio de pensamento estratégico. Não se faz pensamento. Não é dada a oportunidade às pessoas, e não é porque as pessoas não são confrontadas com a necessidade de preparar e promover esse planeamento estratégico. Desde logo, porque, ao nível da representação parlamentar, os deputados não têm que responder perante as regiões que representam. Com toda a facilidade se acomodam no espaço do centralismo e das orientações das estruturas partidárias, esquecendo os problemas das regiões que representam. Não é fácil encontrar os deputados da região a reunir com as associações empresariais, com as associações comerciais com a imprensa regional, com as associações de agricultores. Devia ser uma prática corrente sentirem os problemas, levarem os problemas ao Parlamento, aos órgãos de decisão e ser combativos, a esse nível. Há uma lacuna na lei que eu acho que tem que ser superada. Por outro lado, não há possibilidade de ganhar voz em termos regionais se não existir um poder regional. Sou adepto da criação de regiões administrativas, dotadas de competências, de políticas administrativas financeiras, com delimitação muito evidente entre o que são as competências dos municípios, das regiões, por intermédio da administração central. Eu acho que a região pode ganhar com este modelo. O modelo centralista actual esgota os recursos do país e empobrece, torna-o menos competitivo, em termos internacionais. Eu acho que há que experimentar um modelo intermédio, sem que isso represente mais recursos para a administração, ou uma administração mais pesada. Entendo que a administração, hoje, pesa demasiado sobre a vida e orçamento das famílias. É preciso encontrar uma forma de evitar que esta tendência de crescimento da despesa pública continue a sacrificar os cidadãos com uma carga fiscal tão pesada. Eu acho eu é possível encontrar formas de governo mais eficazes, mais próximas dos cidadãos, mais directa na forma como os recursos públicos são utilizados. Sou adepto da criação de cinco regiões, desde que na sua criação haja clareza suficiente no que diz respeito à definição clara das competências, em termos políticos, administrativos e financeiros. Não é aceitável, e eu não defenderei uma situação dessas, se a perspectiva de criar as regiões administrativas corresponder a uma visão de repetir aquilo que é o centralismo do Terreiro do Paço.
MN: Nestas eleições há uma novidade, são seis os candidatos. Isso para si representa alguma preocupação?
JN: Eu acho que representa um sinal de vitalidade, por um lado, no combate democrático. Evidentemente que isso representa alguma maior dispersão do eleitorado, mas pode ter, por outro lado, a vantagem de incentivar o debate democrático, o debate das ideias, tendo em vista um concelho mais desenvolvido, mais moderno, mais atractivo. Não vejo de forma negativa o facto de existirem seis candidaturas.
(Continua na edição impressa desta semana)

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