Entrevista // “A demissão ou ausência dos pais é um factor predominante e importantíssimo na disciplina” Por: / Secção: Actual / 10-04-2008 Imprimir Enviar a um amigo
Entrevista a António José GasparPode-se dizer que é uma das pessoas que seguiu o seu sonho?
Sem sombra de dúvida. Talvez influenciado pelos princípios de disciplina e de exigência que havia no Colégio do Estoril, o método preventivo e de presença constante no meio dos alunos fez criar em mim um bichinho pelo ensino. A partir dos 15, 16 anos sabia perfeitamente que era isso que eu queria.
É director do Colégio da Boavista há mais de 28 anos. Um Colégio que surgiu em 1927. Acha que há muitas diferenças desde que assumiu a direcção até agora?
Penso que sim. Um ano depois de ter entrado para o Colégio fui nomeado director, sendo o mais novo dos professores. A partir daí, arregacei as mangas e apostei forte em fazer umas instalações novas, um Colégio condigno que não nos envergonhasse. Aquilo era tudo alugado a várias pessoas particulares e houve que adquirir os edifícios e os terrenos para depois avançar para essa loucura que foi o projecto do colégio feito de raiz. Hoje tenho o orgulho de ter um dos melhores do país, mesmo em termos de instalações. Foi esse o sonho que sempre persegui.
Rigor, acompanhamento, ocupação foram sempre três vertentes que estiveram na base da sua direcção...
A minha preocupação sempre foi rodear-me de professores vocacionados para ensinar. O ser professor porque foi empurrado para ali ou porque não pôde tirar outro curso não resulta. A vocação é fundamental, mas também é necessário dedicação e que gostem de estar com as crianças, de brincar e jogar com elas, o que não impede que haja respeito mútuo. Depois, é preciso regras muito claras. Hoje, pelo país inteiro corre a ideia de que os alunos e a juventude em geral não gostam das regras, são quase incorrigíveis e ninguém consegue fazer nada deles, a começar pelos pais. Isso não é verdade e eu sei isso por experiência própria. Os jovens gostam de saber quais são as regras e que sejam racionais. Desde que entendam por que é que é assim, eles não falham.
"A escolha de professores que sejam vocacionados é fundamental"
Falou na questão dos professores serem vocacionados, mas a verdade é que hoje em dia muitos estão condicionados a toda a actividade burocrática…
Exactamente. Há posturas na legislação que o Ministério está a desenvolver com as quais concordo, só que às vezes os objectivos não são assim muito claros, ou pelo menos a metodologia para lá chegar devia ser muito mais eficaz. Agora fala-se que se vão fazer exames de ingresso para professores. Eu concordo com essa medida porque faço isso há vinte e tal anos. Quando tive de recrutar professores com a tal vocação, capacidade científica, pedagógica e humana senti a necessidade de fazer isso. E chego à conclusão que ultimamente é cada vez pior. Às vezes, para recrutar um professor tenho de fazer oitenta e tal entrevistas e, consequentemente, exames. Há muito professor que chega a uma entrevista e não conhece os programas que ele próprio vai leccionar, o que não é correcto. Essa escolha de professores que sejam vocacionados, que tenham capacidade e que o queiram ser é fundamental à partida. Se a senhora Ministra for com esta ideia para a frente, dos trinta ou quarenta mil professores que há a mais, corre-se o risco de não se ter os suficientes para as vagas que precisamos, se forem escolhidos com seriedade. Outro problema é o do professor ser investido de autoridade. Porque é um verdadeiro profissional da educação, tem de ser um mestre, um exemplo para os alunos e, portanto, tem de ser autoridade e essa não se lhe pode tirar. O professor tem de ser exigente e tem que ter tempo para poder preparar condignamente as suas aulas, o que lhes leva muito tempo. Concordo que se devem libertar os professores de muita tarefa burocrática que é estéril.
Tem acompanhado situações de violência com funcionários e professores? Por que acha que isso acontece?
A minha visão se calhar é um pouco polémica, não será politicamente correcta. Até hoje não me lembro de violência nas escolas onde estive e muito menos no Colégio. Parece-me que as razões para tal são estas: regras claras, racionais, e professores presentes, o que pode ser praticado em qualquer escola do país. Estamos presentes na sala de aula, onde definimos as regras, aprendemos e dialogamos e também nos recreios, nos pátios, no bar ou nas salas de jogos. Não temos salas de professores, por exemplo. Os professores estão sempre no meio dos alunos, uns conversam com eles, outros jogam futebol, vólei, basket, ténis de mesa, snooker... É essencialmente nos recreios e nos tempos de lazer que nós melhor conhecemos os alunos e também é aí que eles desabafam connosco. Cria-se uma cumplicidade tal que à partida evita qualquer base de conflito. Parece-me que a culpa não estará só nos alunos. Em primeiro, não há regras claras que se percebam. Não estou de acordo com o Estatuto do Aluno, em que há um facilitismo tremendo. Costumo dizer que estamos a infantilizar adolescentes. Por outro lado, os próprios docentes, alguns podiam e deviam ter outra postura. O aluno respeita o professor pela capacidade científica, pedagógica ou humana e quase que se auto-flagela se agredir por um gesto ou palavra um professor. É importante quando um aluno porque não cumpriu determinada regra ou não terminou um trabalho fica profundamente triste por ter desobedecido. O aluno fica triste porque deixou triste um professor que lhe pediu uma coisa que era racional e que ele sabe que seria para o próprio bem.
Pais não se podem "demitir" das suas responsabilidades
E os pais têm de estar mais presentes?
Aí é que nós falhamos. Nós, porque eu também sou pai. Aí é que se falha grandemente e ninguém gosta de o assumir. Os pais hoje, mais do que nunca, precisavam estar sempre presentes na vida dos seus filhos. No entanto, essa presença implica sacrifícios a toda a família. É muito mais fácil dar uma playstation, pôr uma televisão no quarto ou arranjar festas em que ponhamos as crianças numa sala e nós vamos para outra... Não há a convivência que havia há anos atrás e é urgente voltar a haver. Essa demissão ou ausência dos pais é um factor predominante e importantíssimo na disciplina.
Em relação à educação para a saúde há algumas situações em que tentou acompanhar os alunos, seja nas drogas, no tabaco e também na sexualidade…
Está no nosso regulamento, e fomos claros desde início, nunca nenhum aluno fumou ali dentro, muito menos outras drogas. As pessoas podem dizer “ele diz que não se fuma mas depois na casa-de-banho…” Mas não. A nossa presença é de tal maneira constante que damos conta dessas situações. No campo da sexualidade temos uma psicóloga a tempo inteiro, um grupo de professores e uma actividade que se chama “Educação para a Saúde” em todos os aspectos, desde a alimentação, hábitos saudáveis de vida e também na sexualidade, sem qualquer tabu.

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