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Bragança // Seminário: a “grande escola” da Igreja Por: Carla A. Gonçalves / Secção: Igreja / 06-11-2009 Imprimir Enviar a um amigo

Foto: Carla A. Gonçalves
Com mais de 400 anos de existência, o Seminário continua a ser o pilar da formação dos futuros padres

O toque do sino anuncia a hora da oração no Seminário de S. José, em Bragança. São sete da manhã quando uma dezena de jovens se encaminha para a capela interior do Seminário, o antigo quarto dos camareiros, para orar a Deus. A rotina faz parte do dia-a-dia dos seminaristas e de um caminho de reflexão que deve culminar com a ordenação.

Numa altura em que se celebra, a nível nacional, a Semana dos Seminários, o Mensageiro ouviu o testemunho de três jovens que serão ordenados já no dia 15 de Novembro e traçou uma “radiografia” do Seminário de S. José com o seu reitor, o cónego Silvério Pires.

A “grande escola da Igreja”, com mais de 400 anos de existência, continua a ser o pilar da formação dos futuros ministros de Deus. Hoje com menos alunos, (actualmente são dez no Seminário Menor e oito na licenciatura de Teologia), o Seminário assume cada vez mais o papel de formar os padres do futuro, embora não tenha a veleidade de considerar que todos chegarão a bom termo durante o “tempo de reflexão”.

“Há 50 anos os seminários estavam abarrotados de jovens mas hoje temos melhor percentagem de ordenações. Hoje, quem entra para o Seminário entra sensibilizado para este modo de vida e com o “bichinho” vocacional”, apontou o cónego Silvério Pires.

No Seminário vive-se um dia-a-dia feito de rotinas, ordem e disciplina. Os jovens são acompanhados por uma equipa formadora e cada um deles tem um director espiritual. Lá fora são jovens, como tantos outros. Gostam de música, de desporto, de se divertir. Vão a casa ao fim-de-semana e regressam no domingo ao final da tarde. A única coisa que distingue estes jovens dos demais é a vocação que sentem para serem ministros de Deus e é ao longo dos anos de Seminário que, todos os dias, terão que reflectir sobre essa escolha.

Dos três jovens que o Mensageiro ouviu, dois deles serão ordenados diáconos e um outro presbítero. A expectativa é que em 2010 Mauro Alves e José Pombal possam ser ordenados presbíteros embora um sacerdote nunca deixe de ser diácono, “de servir a comunidade”. A ordenação sacerdotal não constitui, no entanto, o fim de uma caminha. É antes uma chegada, como explicou António Magalhães. A poucos dias de ser ordenado padre, António recordou os 13 anos passados no Seminário.

“Quando entrei para o seminário talvez não soubesse muito bem se queria ser padre porque dizia que sim mas não compreendia muito bem o que era isso. Cheguei até aqui porque todos os dias fui dando um pequeno sim e se daqui a 20 anos, na minha vida de padre, continuar a sentir esta felicidade e entrega é porque continuo a dar o meu sim”. Um “sim” corajoso, como apontou o reitor. “Os seminaristas são jovens que aceitam um projecto de vida que, nos tempos que correm é muito exigente”, constatou.

É na família que muitos jovens encontram apoio para seguirem a sua vocação mas nem sempre a opção de total entrega a Deus é bem aceite. Mauro Alves considera mesmo que o mundo é “adverso” a estas “opções de vida”. “Ser padre é uma opção pessoal e não profissional. Há muitas pessoas que não compreendem e que não dão valor a esta vocação”. Por isso, quando se fala na alegada “crise de vocações”, o reitor aponta antes para uma “crise de valores” e para a “crise da família”. “Deus continua a chamar, só que o chamamento, por vezes, cai em terra que não está preparada”, considerou. No seu entender, a forma de ultrapassar esta “crise” passa por toda a sociedade, sendo que a Igreja deverá ter peso e responsabilidade de não “desarmar”. “Muitas vezes vemos que a Igreja é a única a remar contra a maré. A Igreja não desarmará ainda que seja voz a bradar no deserto”.

Esta é uma das problemáticas que a Semana dos Seminários, de 8 a 15 de Novembro, deverá reflectir. Sob o tema “Seminário: Palavra que chama e envia”, a comunidade, os cristãos, os sacerdotes e toda a Igreja, serão convidados a reflectir sobre as vocações sacerdotais, relembrando também o lema do Ano Sacerdotal, “Reanima o Dom que há em ti”. O apelo é dirigido aos sacerdotes, mas também ao Seminário, instituição com vocação para formar os padres de amanhã.

A semana culmina com a “cereja em cima do bolo”: três ordenações, a “festa da colheita do Seminário”. As expectativas dos seminaristas é a de “ser um sinal de Deus numa comunidade e cultivar a fraternidade, como ensinou Cristo”. O Seminário de Bragança, para além dos dez jovens estudantes, têm ainda oito jovens a estudar no Seminário Maior de Viseu, na licenciatura de Teologia. O Seminário de S. José, tal como os outros seminários do país, vive modestamente e sem qualquer ajuda pública. Os alunos pagam uma mensalidade, mas que está longe de ser a despesa real.

Testemunho Vocacional

A minha irmã Marlene e eu, Mauro, nascemos a 22 de Maio de 1984. Como na altura ainda não se faziam ecografias, os meus pais só contavam com um, mas, em vez de um nascemos dois: ela e eu, com o intervalo duma hora. Se uma criança dá trabalho e despesa, duas crianças dão muito mais. Assim, com cinco meses de idade, deixei a casa dos meus pais e passei para a casa dos meus avós. Não tardou muito que me inscrevessem no infantário do Centro Paroquial, onde a Ir. Beatriz e a Ir. Salomé, e outras irmãs e educadoras, me ajudaram a criar e me ensinaram a rezar. A minha casa fica ao pé da igreja. Talvez por isso, desde muito cedo comecei a sentir uma certa atracção por Deus. Todos os domingos ia à missa com os meus avós e gostava de a ver celebrar, embora não entendesse ainda o seu significado. Mais tarde, por volta dos dez anos, num domingo, o Sr. Pe. João de Barros convidou-me para ajudar à missa e eu aceitei. A partir desse dia, ia sempre e com muita alegria. Não me lembro quando, talvez no fim da escola primária, manifestei o desejo de ir para o Seminário. Mas o meu pároco respondeu-me que era ainda muito novo para tomar uma decisão dessas. Entretanto, em casa “brincava” com as imagens dos santos, fazia procissões e celebrava missas secas. Com alguns amigos transformámos um Pombal numa capela e a este grupo chamámos “Seguidores de Cristo”. Rezávamos nesse Pombal e depois seguíamos para o cabeço da Senhora dos Montes Ermos, onde líamos e discutíamos algumas passagens do Evangelho. Em Setembro de 1999, entrei finalmente no Seminário de Bragança. E assim iniciei a minha carreira de seminarista: quatro anos em Bragança, um ano no Porto, cinco em Viseu e finalmente de novo em Bragança para fazer o estágio pastoral. Ao longo deste percurso de formação, houve de tudo: alegrias, sonhos, dificuldades, crises, fragilidades…. Mas, mas com a ajuda de Deus, dos muitos formadores, dos colegas e da família encontro-me agora na véspera da Ordenação de Diácono que terá lugar na Catedral de Bragança no próximo 15 de Novembro. O meu sonho está quase realizado.

Mauro Alves

Testemunho Vocacional

Ao longo da história da salvação é importante ter presente o passado (fazer memória). Este abre-nos a consciência para a discreta presença de Deus no acontecer do presente e no decidir do futuro. Aqui, no que à vocação diz respeito, as histórias vocacionais bíblicas ensinam-nos muito acerca da nossa própria vocação. Esta compreende-se inserida na história de Deus com o homem. A vocação, enquanto chamamento divino e resposta humana, implica sempre o aprofundar duma relação concreta. Assim sucedeu com todas as histórias vocacionais, sobretudo as bíblicas. Ora, de entre as muitas vocações bíblicas, gosto de comparar, grosso modo, a minha vocação pessoal com a do jovem Samuel (1Sam 3, 1-10). São dois os principais aspectos para esta semelhança. Antes do chamamento, Samuel mantinha contacto quotidiano com Deus: por um lado, porque vivia no Templo, por outro, porque servia a Deus. Pela minha parte, nasci numa família cristã e, desde os meus nove anos, passei a viver em ambientes de Seminário, de modo que o religioso e Deus sempre me foram familiares. Depois, Samuel, aquando do chamamento, não descortinou/conheceu, à primeira, a voz de Deus, ou seja, apesar de servir a Deus, ainda não tinha intimidade com Ele. Só à quarta vez é que Samuel, com a ajuda do sacerdote Eli, reconheceu quem verdadeiramente o chamava. No que me toca, o tríplice chamamento não correspondido diz-me sobre a minha descoberta lenta e gradual, com altos e baixos, momentos adormecidos e outros despertos; mas, sempre com a presença e a ajuda de muitos cristãos, sobretudo sacerdotes. Resumindo, como Samuel, desde pequeno, cresci na proximidade de Deus e a escuta do Seu chamamento foi gradual e acompanhada. Hoje, ao olhar a história da minha vocação, vejo que o discernimento é longo e demorado como qualquer decisão basilar na vida. Vejo que a certeza, livre e íntima, radica na minha relação real com Deus. Vejo que o sinal, o grande sinal, é a alegria profunda do sentido da vida encontrado: servir, como cristão situado, a Igreja e o mundo. Vejo que o desafio é a consciência matinal do chamamento.

José Luís Amaro Pombal

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