Trás-os-Montes // Menos gente a caçar Por: / Secção: Actual / 18-12-2009 Imprimir Enviar a um amigo
Nordeste transmontano perdeu quota no mercado nacional. O que fazer para inverter o actual quadro cinegético?O número de licenças anuais de caça ultrapassa ligeiramente as 150 mil, aquém da grandiosidade das décadas de 80 e 90 do século passado, onde os caçadores rondariam os 300 mil, uma força a ter em conta. É verdade que o sector da caça mexe, ainda, com a economia nacional, mas urge implementar medidas para travar o decréscimo e recrutar mais gente jovem. Mesmo assim, e apesar de ter perdido o encanto de outrora, o distrito de Bragança ainda é o quinto a nível do “país continental” (com o arquipélago dos Açores incluído) com mais candidatos a caçadores, um handicap para a região. O porquê da redução do número de caçadores? Raul Fernandes, presidente da FACIRC, deixou a sua explicação ao Mensageiro: “A juventude tem outros apelos e outras solicitações de que não dispunha há anos atrás. É preciso um forcing para motivar os jovens. Há, ainda, a ter em conta os aspectos burocráticos para obtenção dos documentos necessários para caçar. Só há uma época de exame para obtenção da carta de caçador e o processo para obtenção da licença de uso e porte de arma de caça é complicado, moroso, etc . No que diz respeito a uma faixa etária mais elevada, a diminuição da caça, sobretudo de espécies de caça menor, e os constrangimentos da nova lei da caça e das armas leva a que muitos desistam. As exigências para a renovação da documentação e o cumprimento de outros requisitos resultantes da Lei das Armas em vigor estão na base de muitas desistências. Como se inverte a tendência? A solução não é, obviamente, milagrosa, nas palavras do nosso interlocutor: “É preciso sensibilizar os mais pequenos, os jovens, levando a cabo acções nas escolas. A ideia que têm da caça é lhes transmitida por gente que não é caçadora. Precisam de escutar a mensagem certa e sensibilizá-los e motivá-los para a prática da caça, usufruindo da natureza. Os futuros caçadores são formados de acordo com os novos conceitos da caça, entre eles a gestão e a preservação.” O Nordeste transmontano, outrora cartaz forte e quase insuperável, foi ultrapassado pelo Alentejo, sobretudo, e até pela Beira Interior. Será possível voltar ao topo das preferências? “Essa perda também se deve à inércia de muitas associações de caçadores. É preciso, isso sim, dinamismo, com acções e iniciativas apoiadas tecnicamente. É preferível, no entanto, não fazer nada do que fazer mal, nesse caso acrescentando problemas aos já existentes numa zona de caça. Aos novos caçadores são já incutidos outros hábitos de caça. O caçador individual tem os dias contados. Caçar é um acto social e só faz sentido em grupo, na companhia de familiares e amigos. Os resultados de caça têm também de ser dados a conhecer à entidade gestora da zona de caça. O Nordeste transmontano é um vastíssimo território e foi o destino de milhares de caçadores residentes no Litoral Norte e Centro, sobretudo. Hoje muitos procuram outras paragens, onde a caça é gerida de forma sustentada, gera emprego e é uma mais-valia em termos turísticos.”, eis a perspectiva de Raul Fernandes, optimista quanto ao futuro da caça na região transmontana: “Há uma janela que se franqueia face à abertura da Tutela. Com a transferência para as organizações do sector da caça de competências e responsabilidades será possível recuperar, paulatinamente, o tempo e o terreno perdidos. Com as parcerias de apoio científico já em marcha, é preciso, agora, passar das palavras aos actos. É fundamental adaptar o esforço cinegético à zona de caça, à sua realidade de caça, e determinar quais os factores limitativos às espécies cinegéticas, a fim de ajustar medidas correctivas. Este será o caminho para, a médio prazo, recuperar o destaque que o Nordeste transmontano já desfrutou no que toca à caça. É preciso que as associações se abram, não se fechem em redor da sua zona de 1500/2000 hectares, por exemplo, mas que estejam prontas a participar em planos globais de gestão.
“Aula prática”
Caçador e entendendo a caça como “um desporto de natureza”, Beraldino Pinto, presidente da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, rotulou de “aula prática” o apadrinhamento de um grupo de novos caçadores, iniciativa que apoiou desde a primeira hora. “Agrada-me que os novos caçadores se enquadrem em organizações de caça que têm preocupações ao nível da formação e da sustentabilidade dos recursos cinegéticos. Esta jornada de caça será marcante para quem está a começar as artes venatórias”, acrescentou. O autarca tem a noção de quanto vale a caça no contexto da oferta turística da região, mas, até pelas novas acessibilidades, é preciso congregar esforços, saber tirar dividendos de futuras sinergias. “O ordenamento cinegético a grande escala originou uma outra realidade. O Nordeste transmontana será, todavia, a região que ainda tem mais caça selvagem. Há que geri-la com qualidade e de uma forma conjunta, unindo esforços e vontades, enfim, cooperando.”

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