Nordeste Transmontano // Bem-vindos ao mundo da caça Por: / Secção: O Olhar / 21-12-2009 · 2 comentário(s) Imprimir Enviar a um amigo
Novos caçadores tentaram acertar a pontaria ou, pelo menos, experimentar um cenário real de caçaA Federação das Associações de Caçadores da 1ª Região Cinegética (FACIRC) promoveu, recentemente, uma acção de caça para dar as boas-vindas a um grupo de novos caçadores, aplicadíssimo nos requisitos para a obtenção de carta de caça e licença de uso e porte de arma de caça. A amostra transmontana dá garantias a respeito dos novos desafios que a caça nos coloca nos dias de hoje, com a paixão que, teimosamente, passa de geração em geração. A acção de caça da federação macedense, uma aula prática sobre perdiz-vermelha de cativeiro, foi apoiada pela autarquia local, não fosse ela presidida por um caçador, Beraldino Pinto, e insere-se no âmbito de uma campanha em marcha da Confederação Nacional dos Caçadores Portugueses (CNCP), apostada em acarinhar e incentivar quem acabou de chegar ao mundo mágico da caça! Iniciativas que fazem todo o sentido nos dias que correm, a fim de enquadrar os novos caçadores numa realidade cinegética completamente diferente e onde o papel do caçador será cada vez mais importante para perpetuar uma actividade milenar e que se entrelaça até na história da evolução do Homem.
Associativa de Grijó franqueou as portas
Como previsto, ainda que o grupo de novos caçadores tenha sofrido algumas baixas de última hora, a acção de caça teve lugar, no 1º de Dezembro, Feriado Nacional, na zona de caça associativa de Grijó/Vilar do Monte, com a Serra de Bornes a ser testemunha de um par de bons lances, em respeito pela natureza e cumprindo as regras de segurança. O único senão da jornada cinegética foi o tempo – uma manhã fria, chuvosa e com nevoeiro à mistura -, mas os novatos fizeram-se ao monte como gente adulta e batalharam pelas perdizes, dando expressão ao verdadeiro espírito de caçador. Os oito debutantes tinham como amparo sete padrinhos, entre eles o anfitrião da iniciativa, Raul Fernandes, o presidente da Federação macedense e também da Associativa que acolheu o grupo, e Castanheira Pinto, vice-presidente da CNCP e o representante português na FACE (Associações dos Caçadores Europeus). A iniciativa começou a entrar na forja quando a Federação sedeada em Macedo de Cavaleiros acolheu, no presente ano, 20 candidatos a futuros caçadores e os preparou, como habitualmente, para as exigências teóricas e práticas associadas à carta de caçador e, também, à obtenção da licença de uso e porte de arma de caça, esta última área da responsabilidade da Polícia de Segurança Pública (PSP). Pela qualidade dos formadores e pela aplicação dos formandos, os resultados foram notáveis: apenas uma reprovação. “Para além do manual de exame, insistimos muito nas questões de segurança e nos cuidados a ter no manuseamento e uso de uma arma de caça. Os candidatos a caçador são, também, sensibilizados para a nova realidade da caça e seus conceitos, como a gestão e a preservação dos “habitat”.”, contou ao Mensageiro o promotor da jornada cinegética. Raul Fernandes não quis, antes do grupo rumar à zona de caça para fazer o gosto ao dedo e envolver-se na paisagem, deixar de recordar a todos, novos e velhos caçadores, o que é hoje a caça: “A satisfação dos lances sobrepõe-se à quantidade, usufruindo da natureza e promovendo um são convívio entre todos.”
Duas lebres correram em paz!
Dos 13 novos caçadores previstos marcaram apenas presença oito. Um grupo de sangue na guelra – cinco com idades compreendidas entre os 16 e os 20 anos. Só três tinham voz mais grossa. Com as perdizes debaixo de mira, e eventualmente uma raposa que andasse em busca de comida pela zona a bater, foram feitas duas linhas de caça, a fim de enquadrar a gente nova e os respectivos padrinhos. Algum cuidado na selecção para que o despique fosse equilibrado. A manhã de chuva e de nevoeiro ditou um quadro de caça inferior ao esperado, perante o número de perdizes introduzidas umas horas antes, mas as linhas portaram-se bem, de acordo com as peças levantadas pelos imprescindíveis cães de parar. E um dado ainda mais importante: cumpriram-se as regras de segurança, pelo que a manhã de caça foi vencida sem sobressaltos. Quis o destino colocar à prova a ética e a sensatez de quem acaba de entrar no mundo da caça ao fazer esbarrar dois novatos com outras tantas lebres. Por respeito ao estipulado, as “ruças”, tão apreciadas pelos caçadores, safaram-se de levar chumbo. Os felizardos dos lances nem sequer levaram a arma à cara. É assim que deve ser. Os protagonistas da jornada cumpriram, todavia, o que estava previsto, ou seja, abateram a perdiz da ordem, à excepção de um deles, ainda a familiarizar-se com o monte e as manhas das espécies. É que neste caso o vício não foi obra da genética, chegou antes pelas ligações que o matrimónio sempre dita. O sogro de Halestino Pimentel., uma cara simpática, terá que lhe ensinar alguns truques para não deixar escapar sem fogo a perdiz que passa por cima… Uma caldeirada de borrego sossegou, por fim, os estômagos. A distribuição de umas lembranças e o quadro de caça remataram uma jornada cinco estrelas.
Têm a palavra os mais novos
Daniel Lino, de 16 anos, natural de Macedo e estudante do ensino secundário, era o benjamim do grupo. A caçar na companhia do pai – terá de o fazer até completar 18 anos, por imposição legal – fácil é perceber que o vício foi herdado. “Comecei a ganhá-lo há três/quatro anos, quando passei a acompanhar o meu pai”, confessou o jovem, certo de que a espécie caçador não tem, por ora, os dias contados. “Gostava de formar um grupo de amigos e caçadores. Muitos jovens preferem os chamados desportos de cidade. Pensam que a caça é matar, matar e matar! É, isso sim, um divertimento”, revelou ao Mensageiro, ele que se rotula de caçador coelheiro por tradição familiar. “Tenho cinco podengos e apenas um perdigueiro”, acrescentou. Daniel tem já a noção do que é hoje a caça: “É preciso fazer por ela e gerir com racionalidade os recursos para desfrutar deste prazer semanalmente.” No caso de Tiago Fernandes, de 18 anos, a acabar o ensino secundário, foi também a genética que falou mais alto. Filho de peixe, de Raul Fernandes, no caso, sabe nadar! “Partiu dos dois a ideia de me fazer caçador”, disse, ainda que o amor que nutre pelos cães de parar tenha também ajudado à ideia. “As jornadas como mochileiro entusiasmaram-me e, na hora certa, avancei.” Sobre a caça e o perigo de o número de caçadores diminuir substancialmente nos próximos anos, Tiago opinou: “Há menos caça, o que afasta alguns, e muitos jovens não sabem o que é a caça. É preciso sensibilizá-los para o verdadeiro espírito da caça. Mas, por outro lado, os novos caçadores são mais conhecedores das espécies e têm a noção de que só com uma boa gestão se avançará.” Para além de Daniel e de Tiago, os restantes heróis do dia dão pelos nomes de Vítor Manuel Martins, Luís Canelha, José Borges, Sérgio Gemelgo, Halestino Pimentel e António Veigas.

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