Entrevista // “A música que faço é uma forma de expressar o que sou” Por: / Secção: Cultura / 09-03-2010 Imprimir Enviar a um amigo
Pela primeira vez em Vila Real, a fadista Ana Moura encantou com a sua actuação.Pela primeira vez em Vila Real, a fadista Ana Moura encantou com a sua actuação. O Mensageiro foi conhecer uma das cantoras mais reconhecidas a nível nacional e internacional. Já passou pelos grandes palcos americanos e antes de rumar ao centro da Europa, para uma digressão pela Alemanha com o seu mais recente disco “Leva-me aos fados”, a fadista aterrou em Vila Real e deslumbrou.
Mensageiro Notícias (MN): Como surgiu a paixão pela música, pelo Fado?
Ana Moura (AM): Tive um contacto com a música desde muito cedo, porque cresci num ambiente muito musical. Ao ouvir os meus pais a cantar, a tocar, embora nunca tenham feito disto profissão, mas naqueles convívios com os amigos, entre família, sempre houve esta atmosfera musical. E o Fado estava sempre presente, entre outras músicas.
MN: O que é para si o Fado?
AM: O Fado é algo difícil de explicar, porque engloba várias vertentes, mas, essencialmente, o Fado é uma forma de expressar aquilo que nos vai na alma. É a forma mais simples de poder dizer aquilo que representa.
MN: Qual foi o primeiro Fado que aprendeu?
AM: O primeiro Fado foi o Lágrima, da Amália Rodrigues. É um fado que adorei, tem uma letra lindíssima não tivesse sido ele escrito pela Amália Rodrigues. A sua interpretação faz-nos apaixonar por tudo aquilo o que ela canta.
MN: O seu primeiro disco foi “Guarda-me a vida em mão”, em 2003. A aceitação que teve excedeu as suas expectativas?
AM: Não sou uma pessoa de criar muitas expectativas. Faço apenas com toda a paixão que entrego aos trabalhos e depois tento usufruir disso da melhor forma possível, por isso não crio muitas metas.
MN: Foi convidada para actuar no Carnegie Hall, tendo sido a primeira cantora portuguesa a fazê-lo, e já antes actuou no Town Hall. Que emoções sentiu ao pisar estes palcos?
AM: Eu fui ao Carnegie Hall porque fui convidada a participar num concerto com outros artistas e houve um senhor que me ouviu nesse concerto e que disse: “um dia hei-de trazê-la cá”. E entretanto isso aconteceu de seguida. Nunca esperei, foi logo no início da minha carreira e, portanto, aquela sensação de estar no meio de Times Square, em Nova Iorque, e de olhar para o cartaz na fachada do Carnegie Hall e dizer “Sold Out” (esgotado), tudo isso me faz lembrar de sonhos, deixou-me muito feliz.
MN: Como é que o público americano e também dos países por onde passou reage a este tipo de música?
AM: Muito bem. É incrível, porque as salas estão sempre esgotadas. E o público americano é muito efusivo. E é muito interessante perceber-se as diferenças das culturas nos diferentes países quando estamos em palco, pela forma como as pessoas se manifestam. Às vezes, há público mais tímido, mas depois no final do concerto não nos deixam sair do palco e os americanos não. Falam durante o concerto, interagem connosco e são muito mais efusivos. Há diferentes formas de manifestarem.
MN: E como caracteriza o público português?
AM: Depende das zonas do País. É interessante perceber isso. Naquelas terras mais pequenas, as pessoas são um pouco mais tímidas, mas também tenho sido muito bem acolhida. Tenho estado a fazer a apresentação de “Leva-me aos fados” e os concertos também têm estado sempre esgotados antes do dia, o que me deixa bastante feliz.
MN: Já venceu alguns prémios nacionais, como o Prémio Amália, e o disco “Aconteceu”, de 2004, para os Edison Awards. Como encara este reconhecimento?
AM: São pequenos presentes que nos fazem sentir que nós estamos no caminho certo. As carreiras constroem-se com imenso trabalho, com dedicação e estes prémios são pequenos presentes que nos fazem perceber que estamos na direcção certa.
MN: Foi convidada pelo saxofonista dos Rolling Stones a integrar um projecto, gravou alguns temas e actuou com eles em Portugal. Como foi essa experiência?
AM:Foi algo indescritível. Não estava à espera. Soube no próprio dia, porque eles tinham apenas convidado para ir ao backstage (bastidores) e, entretanto, quando estava a chegar ao Estádio Alvalade XXI, local do concerto, recebo um telefonema do Tim Ries a dizer que os Rolling Stones me queriam a cantar com eles. Foram muitos nervos, porque o Mick Jagger disse, “Ana eu canto cinco tons acima do teu”, e eu tive de cantar no tom dele e improvisar uma nova melodia dentro daquela estrutura musical. Era impossível eu cantar no tom dele. Fui feliz. Eu costumo dizer que não crio muitas expectativas para conseguir usufruir do presente, porque quando pensamos muito no futuro, perdemos aquilo que se passa no momento.
MN: Quais foram os locais que mais gostou de actuar?
AM: Não consigo escolher um palco que tenha gostado mais, porque para mim um concerto não é o único palco em si, é também a atmosfera que se cria e isso depende também do público.
MN: No “Leva-me aos fados” inclui várias participações de compositores. Porquê?
AM: Tenho acompanhado a carreira de alguns destes compositores e sempre foi um sonho meu poder convidá-los e cantar músicas deles. E os caminhos cruzaram-se e conheci-os pessoalmente, o José Mário Branco, Os Gaiteiros de Lisboa. E eu gosto da diversidade. O meu último disco, por exemplo, não tem um tema comum e tenho vários compositores. O que unifica em termos de linguagem é a minha interpretação e a dos músicos.
MN: Que balanço faz deste seu percurso até agora?
AM: Muito positivo. É preciso estar na hora certa, no sítio certo. Não comecei a trabalhar em Portugal com managers portugueses, eram holandeses, por isso a minha carreira começou primeiro lá fora. E depois com o “Para além da saudade” e já com manager português já deu para conhecer mais a minha música ao público português. As coisas foram-se desencadeando de uma forma muito natural, sem que tivesse lutado muito, por exemplo, para estar num grande palco internacional. É preciso ter-se sorte.
MN: E o futuro?
AM: Já tenho algumas músicas em carteira, mas agora estou focada nas tournées. Vou ter um mês intensivo pela Alemanha e quero-o apresentar da melhor forma. Depois, começarei a pensar no que vai acontecer.
MN: A Ana Moura enquanto pessoa é diferente da Ana Moura cantora?
AM: Acho que não. É difícil definirmo-nos. Sempre foi uma luta minha desde o início. Há pessoas que vêem o artista como uma personagem que devem interpretar, no meu caso não queria que assim fosse, queria que fosse o mais natural possível. Entendo a música que faço como uma forma de expressar aquilo que eu sou. Tudo está ligado, não consigo fazer essa separação. Sou sempre a mesma pessoa.

Estatísticas das notícias //

0 Comentários